segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Conto "O Espantalho de palha"



Era uma vez um espantalho feito de palha, cujo corpo envolvido em uma estaca de madeira com um fio lhe dá a consistência de um farrapo maleável, coberto por uma ganga velha onde as espigas se contorcem com a sua imobilidade.
Isso permite a sua identificação pelas criaturas que se aproximavam para tomar para si o que ele protegia, tal como os corvos negros que no cair da noite se aproximavam, enquanto o espantalho com a ajuda do vento, movimentava desenfreadamente o seu corpo de tábuas, numa tentativa de frustar as suas tentativas.
Porem devido à sua fragilidade, por vezes quebrava face ás intempéries do mundo, tal como sucedia em dias de chuva cerrada ou de forte vento.
Dessa sua pouca sorte, sina talvez, fado ou missão, apenas na sua cumplicidade com o que lhe seria destinado, ele se embutia em serenidade, quando pouco tecido já lhe cobria nesses temporais, para ser depois restituído como novas camadas de palha.
Os campos perdiam-se por essa planície, que se estendia por um caminho rústico que iria dar a uma zona onde se pode avistar todas a povoação e suas casas antigas.
Compreendendo que daquele esforço dos aldeões, do suor que lhe cai do rosto, no mesmo rosto onde as ruas revelam o seu sacrifício, era o seu ganha pão, o seu sustento para os dias, que eles avistavam com tanta tenacidade, face à impressibilidade da natureza.
A dança dos bichos no céu assemelhava-se à luta da vida, em que os corvos se aproximavam com as suas garras para se apoderarem dos alimentos, enquanto o espantalho dizia:
- Vão embora que isto não vos pertence!
Ao que eles em círculos sedentos de fome, se preparavam para um novo ataque. O espantalho com a força das tábuas que ele manuseava com estranho equilíbrio, lhes desferia um novo golpe que os deixava momentaneamente atordoados.
Pelo que tinha também o apoio dos outros pássaros que sob os seus ombros expulsavam os corvos que partiam no céu, perdendo-se no horizonte.
- Nunca te cansas espantalho, sempre na mesma posição, vivendo imerso nessa tragédia de afastar os malditos corvos, que tal como sombras se tentam apoderar das esperanças dos que nos seus cultivos, guardam com tanto amor o que lhes custou a alma em sofrimento e suor?
Diriam os pássaros ao aproximar-se, e cujo som ele compreendia por além de falar a linguagem dos homens, também falava a linguagem dos bichos.
- A lua também está sempre no mesmo local, tal como é de sua natureza iluminar a terra com o seu brilho no céu escuro, também a mim preso a este corpo de tábua velha, cabe-me proteger este pequeno espaço, tal como os que se conformam com o destino que o homem lhes deu.
Os pássaros que voavam no céu não compreendiam como podia o espantalho perder a oportunidade de conhecer um mundo  tão grande, para ali permanecer agarrado a uma tábua cravada no solo, como se o seu destino se tivesse que apaziguar a esse fatalismo.
Perguntavam-lhe se teria sonhos:
- Tens sonhos espantalho? Chilreavam rápido com movimentos repentinos partindo pelo céu com suas asas.
Perdido nessa pergunta, o espantalho olhava as noites que passavam e em que os campos por fim repousavam, e questionava-se se teria sonhos. Afinal não passa de um espantalho. Uma criação do homem feito de palha agarrada por uns cordéis a essas tábuas que mal suportavam a água das chuvas ou o vento em dias de temporal.
Mas talvez tivesse sonhos. Levantar-se um dia com a força do seu tronco e quebrar a tábua que o prendia ao solo, para partir e conhecer o mundo.
Afinal contavam-lhe histórias tão belas e magnificas que ele havia de querer conhecer essas terras de mares gloriosos, ou de montanhas que desaparecem imersas nas nuvens do céu.
E  um dia ao percorrer o caminho em direcção ao mar, aquela parte do mundo onde os peixes falam a linguagem da alma, ele pudesse mergulhar nas águas do conhecimento profundo e trazer dele a sabedoria sagrada, tal com a razão da sua existência.
E nessas noites em que a lua iluminava todo esse serão, em que a brisa no seu rosto lhe trazia a confirmação de que as colheitas haviam dado felicidade aos seus cultivadores, ele ficava a olhar a enorme planície que se perdia ao fundo num pequeno riacho, que desaparecia pelo caminho, com o brilho das nuvens no céu, que ao sabor do mundo se tornavam como uma imagem do divino que vinha naquele instante recorda-lo de para alem do seu corpo de espantalho coberto de palha, uma centelha divina ressurgia em si, dando-lhe um dom para alem da sua compreensão e que para alem da razoa e do intelecto, era como um caminho do coração.

Num desses dias em que imperturbável tentava sacudir os corvos negros que se aproximavam de si em investidas cada vez mais maldosas, cravando nas suas costas as garras afiadas e colocando sobre os seus ombros a árdua tarefa que o havia sido embutida como espantalho, surgiu por aquela estrada um coche com um serviçal e sua majestade, Del Rei, que vinham ver as terras concedidas para cultivo e cuja parte lhes era concedida como prémio.
Um belo coche desenhado sob figura de nobreza, revestido a ouro, que institui a mais elevada patente do castelo situado no cimo da colina e rodeado por muralhas onde residia o clero e a nobreza.
O cocheiro desceu do coche e movimentando os braços, agitando-os de forma trapalhona disse xo xo, para que os corvos partissem para longe da terra, ao que com o aviso eles partiram planando por aquelas terras ao longe, enquanto outros desceram pela outra colina em direcção ao riacho.
O Rei desceu no seu magnifico coche, enquanto os cavalos sossegaram, e estendendo o seu magestoso manto partiu estrada abaixo, pelo que iria observar os seus cultivos, e regressaria num instante, demorando pouco tempo e aproveitando para falar com alguns dos seus súbditos que ao longe trabalhavam nas terras, calejados de costas dobradas no chão e ao braseiro do sol que naquele dia zombava no céu.
O cocheiro iria permanecer por ali, ao que o espantalho o chamou dizendo: - “pssss…” tentando chamar a sua atenção. “ Ei, tu aí…” disse por fim.
- Ei lá ! Ei lá ! Um espantalho falante em terras de El Rei. – Disse o cocheiro com a sua voz meio apatetada e virando-se rápido na sua direcção. Aproximou-se para o olhar melhor e concluiu que se tratava de um espantalho pouco assustador, engraçado que não assustaria qualquer corvo.
- Põe-me o chapéu na cabeça por favor! Esse que os corvos atiraram ao chão. - Pediu o espantalho ao cocheiro.
O cocheiro aproximasse com cuidado para não estragar as terras del rei e pega no chapéu colocando-o por cima da sua cabeça, perguntando se ele não se cansava de passar ali os dias sob aquele tempo de sol abrasador, e afastando os corvos que insistiam a todo o instante para roubar a comida daquelas gentes.
O espantalho equilibrou-se e respondeu que era esse o seu oficio, o de proteger as colheitas.
O rosto do cocheiro ficou imóvel e depois soltou uma gargalhada:
- Pois bem, que sejas feliz assim! – Replicou por fim.
- E tu nunca  te cansas de conduzir del ´Rei no seu coche.
- Eu não, eu não! – Respondeu. – Faço também malabarismos, truques de circo, macacadas no trapézio. – E pôs-se a dançar, saltando e movimentando-se como um tonto.
- E não te cansas de ser pateta – Exclamou o espantalho com tom irónico.
- Não é maravilhoso! – Sorriu o cocheiro, pulando e dançando como se responde-se com mais veemência ao suposto insulto do espantalho sem lhe dar pouca importância.
- Como te chamas? Perguntou-lhe, que se rejubilava com o facto do espantalho estar ali pregado e ele ter toda a liberdade da vida para pular e dançar.
- O meu nome é Orlando! – Respondeu o cocheiro. – Primeiro quando nasci puseram-me o nome de Fernando até que um dia com a minha miopia crescente e com o meu ar de enfezado, a minha avó e as minhas tias, depois de ter sido abandonado pelos meus pais, que não tinham forma de sustentar um malandro, puseram-me o nome de Orlando. É uma forma de dizer: não és tanto tonto, nem tanto lindo.
Finalizou dando um pulo no ar de contentamento.
- E tu, e tu que nome te deram – perguntou ao espantalho.
- Não tenho nome nenhum – Respondeu.
- Claro que tens! Toda a gente tem um nome!
O Espantalho nunca tinha pensado nisso. Não tinha um nome, uma identificação que o pudesse afirmar como humano, sendo assim uma mistura de farrapos com um poucochinho de alma, que contudo lhe permitiam sonhar sonhos absurdos, como o de ver o mar e mergulhar na sua profunda sabedoria, renascendo para além do farrapo de homem que era, e que mesmo nessa centelha de espírito que nascia a cada dia dentro dele, se ia conhecendo melhor e a sua humanidade.
Olhou o horizonte para além do rosto do cocheiro, que se chamava Orlando mas cujo nome de nascença era Fernando, mas que depois da adopção pelas tias e avó e pelo seu ar enfezado de miúdo malandro e maldoso, lhe havia sido trocado. Com a crescente miopia arranjaram-lhe uns óculos quadrados pretos de hastes também pretas, que lhe permitiam ver melhor ao longe, mas que infelizmente ao perto lhe tornavam tudo turvo, não o curando mas piorando o seu estado degenerativo, cujos neurónios não abarcavam a sua infinitesimal inteligência mal medida, dos tombos que o destino lhe havia de pregar pelas suas macacadas no trapézio e malabarismos rascos que tanto alegravam os serões del´Rei, que por aqueles instantes descia aquela estrada arrastando o seu majestoso manto dourado!
- Coitado! Pensou o espantalho. – Pobre vida a do infeliz e eu a pensar que a minha á árdua.
Olhou o rosto de Orlando com compaixão e compreendeu que aquele estado de grande felicidade era apenas uma forma de esconder a sua imensa inferioridade de uma vida madrasta de abandono e rejeição.
- Vamos arranjar-te um nome… Já sei! – Disse o Orlando como se o seu rosto se iluminasse com uma ideia brilhante, que até o movimento das suas orelhas pareceram deslocar um pouco da haste dos seus óculos, para a ponta do seu nariz curvilíneo, olhando por cima das lentes, e de momento a fazer recordar ao espantalho um corvo que se aproximava pela frente para lhe desferir um golpe com as suas unhas no seu tecido de ganga, que tanto amor a ele tinha.
- Estapafúrdio – Exclamou. – Ide-vos chamar Estapafúrdio.  E sorriu com um sorriso aberto, abrindo as bochechas como quem se alegra do fundo da alma, com um acto tão caridoso que era a de doar o espantalho que de assustar não tinha nada, com um nome que o baptizasse e lhe desse um pouco de personalidade, alem do carácter que é ser espantalho.
Com a mesma reacção de há momentos, ter ficado assustado com a mudança de tom no rosto de Orlando, o espantalho ficou a pensar no nome com que o queria baptizar, e que embora não fosse muito a seu geito, sempre podia conferir um pouco de personalidade que o  fizesse ser também uma pessoa, e tal como as pessoas, poder sentir sentimentos, desconhecendo contudo que o seu coração de palha já incluía um pouco dessa miríade de estados, que ele ao olhar o cair da noite, se parecia ser abraçado pelo divino.
Por isso, talvez nem precisasse de nome, sendo espantalho na sua forma única, e na sua fragilidade composto por palha, e tendo como função afastar os malditos corvos, a sua própria identidade.
-Já sei! Emplastro. Replicou o Orlando coçando a cabeça, como se lhe houvesse custado a queima de dois ou três neurónios, caso o dele, irremediável, sendo uma situação insustentável a pouco prazo por estarem todos em extinção.
Emplastro parecia muito bem e quis contar as razões do nome, explicando que a sua escoljha não se remetia apenas ao aspecto gramatical, mas envolvia grandes análises de raciocínio, que na cabeça de Orlando, se remetiam a altas esferas de intelectualidade, de forma divina, como se o seu domínio celeste sob todos os elementos quando fazia malabarismo, fosse para além dos seus reflexos, um dom tão primata como a descoberta do fogo pelos nendertais, e por isso emplastro incluiria tal como o seu nome de Orlando, uma reminiscência a um estado tão tonto como de lindo.
Assim,  dotando o espantalho de personalidade não se sentiria tão sozinho no mundo.
Ia rematar o próximo nome quando El´Rei chamou.
- Orlando? Orlando? Pegue no meu manto, venha lá.
O dia tinha anoitecido, e o nevoeiro e as nuvens no céu, criavam um tom bruxuleante, pelo que as pingas evaporavam ainda aos poucos raios que para alem da planície surgiam na solidão, e o som dos pássaros difundisse nesse escuro, e os corvos sobrevoavam em bandos até suas casas.
- Quando El´Rei souber que existe um espantalho falante por estas bandas vai ficar espantado! Disse Orlando enquanto corria trapalhão em direcção ao coche para pegar no manto  que se estendia ao comprido.
O Espantalho apenas teve tempo de ouvir:
- Não sejas tonto Orlando.
Pensou que falassem em relação ao facto de um espantalho ter um dia personalidade e com isso sentimentos. Que um espantalho pudesse sentir como um ser humano e como tal não ser colocado ao frio, à chuva e à intempérie para desempenhar uma tarefa tão sacrificadora como a dos camponeses que trabalhavam arduamente, para que El Rei pudesse percorrer naquela estrada com o seu manto dourado, ostentando o seu poder e a sua riqueza.
Um espantalho não deixará de ser um espantalho, e Rei um Rei, e talvez na tentativa de o imergir com um pequeno ego que fosse, com aqueles nomes que lhe conferiam esse sinal na vida, ele pudesse ser alguém, e ter importância para alguém.
Mas nessa forma absurda de pensar, em que se questionava nos seus sonhos, o que dele poderia sonhar, Espantalho já se abraçava na sua própria companhia, que na solidão da noite lhe era suficiente para bastar a si próprio, como se ao despertar da centelha de vida, ao som das histórias que os pássaros contavam ele perde-se no absurdo que seria recuperar um pouco da consciência perdida na sabedoria do oceano profundo para o qual imergiria um dia o seu olhar, o mar cujos som das ondas se escutavam no seu coração sempre que soltasse o seu espírito pelo mundo, e a ele encontrasse quando a sua alma a si voltasse.
E a partir daquele dia, foi batizado de Estapafúrdio ou Emplastro.