quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Estranho caso dos membros desaparecidos - Conto




Estranho caso dos membros desaparecidos - Conto



Não posso precisar quando tudo começou. Lembro-me que a pouco e pouco fui perdendo a consciência dos meus actos, e imiscuído desses cuidados, a consciência sobre o meu corpo se foi deteriorando. Primeiro começou pela minha mão, que a pouco e pouco foi perdendo a sua força. Depois os meus membros inferiores, as minhas pernas e no final o meu tronco e cabeça. Mas para recapitular e vos contar o que se passou tento recordar as memórias que fui perdendo nesse episódio.
Era uma manha de chuva. Já no céu as nuvens rebentavam sob a terra e chovia de forma torrencial. Os pingos à semelhança de pequenas gotas desciam sob a janela do  quarto, estando eu deitado na cama. Conseguia vê-los a descer sob o alpendre, e mergulhado no sono ainda, deixei-me estar a ver esse triste bailado. Depois, levantei-me e vesti o casaco de linha grossa para me proteger da intempérie. Um griso frio apoderou-se da minha alma e regelei sentando-me na cama.
O primeiro torpor que senti foi na minha mão direita. Os dedos pareciam não se mover, e tentei sacudi-la para que ganhasse vida, mas nada. Nem o duche quente pareceu acordar os dedos daquele torpor que a pouco e pouco se apoderava do meu corpo. Depois do duche, vesti a roupa, e fui até à cozinha. Uma cozinha de tons lilases, com uma mesa ao meio, e duas cadeiras na qual me sentei para beber um copo de leite. Olhei para o relógio e seriam umas oito da manha. A minha mulher ainda estava deitada, mas ouvindo-me dirigiu-se a cozinha ainda no seu robe castanho. Os seus cabelos desciam-lhe sobre o tronco, e os  olhos azuis, como duas pérolas num oceano de luz, desejaram-me um bom dia.
- Olá querido. Disse-me com uma ternura na voz.
A noite passada tinha sido de uma entrega de amor aos nossos corpos, com gemidos de prazer que clarearam os meus sentidos que agora pareciam estar empobrecidos por aquela súbita falta de contacto que sentia na minha mão.
- Bom dia. Respondi-lhe, ao que ela se aproximou de mim dando-me um beijo na boca.
-     Sabes Amanda, esta manhã sinto-me esquisito. E de facto sentia-me estranho, um torpor como já vos contei na minha mão direita, e a dificuldade em tentar mover os dedos.
- Como assim? Questionou olhando para mim.
- A minha mão Sinto um entorpecimento na minha mão direita.
Ela olhou para mim, pegou-me na mão e fez-lhe uma breve massagem. Senti os seus dedos nos meus, mas aquela curiosa sensação não parou de desaparecer. Era como se a minha mão tivesse perdido a vontade própria e desaparecesse no espaço. Como se faltasse ali um membro, e este estivesse decapitado.
Dei-lhe outro beijo na cara e exclamei.
- Não há-de ser nada.
 Mas de facto a  sensação de ausência não desaparecera. Nem com a sua breve massagem os dedos pareciam ganhar outra vida, e a mão a pouco e pouco ia perdendo a sua elasticidade.
Até o copo de leite tive que levantar com a mão esquerda, porque a direita já não respondia aos meus comandos.
- Querido queres que vá contigo ao hospital?  Perguntou-me Amanda.
- Julgo não ser necessário. Respondi-lhe tentando mexer a mão.
Ela sentou-se ao meu colo e disse-me ao ouvido.
- Porque não vens mais um pouco para a cama. Pode ser que te passe. Faço-te uma massagem especial. Senti a sua língua na minha orelha, e abraçando-a respondi que necessitava de ir lá fora ao supermercado e que mais tarde quando regressasse ela faria a tal massagem.
Mas a verdade é que não estava com vontade para a massagem. Os sentidos da minha mão pareciam desaparecer, e apenas um breve relevo sentido era o pouco que eu conseguia discernir.
Olhei pela janela da cozinha e continuava a chover. Uma chuva morna que aclarava o ambiente, pelo que peguei no meu casaco e despedindo-me de Amanda dirigi-me até lá fora.
Desci as escadas do prédio, passo a passo devagar, enquanto conseguia conduzir pela mão esquerda no corrimão da escada. Na rua, a chuva caia em abundância e eu para me proteger, acedi ao guarda-chuva enquanto me dirigi até ao carro.
No carro tive muita dificuldade em conduzir. A mão direita que controlava as mudanças, custava a responder ao meu comando. Fui devagar, desacelerando com a embraiagem, e tentando não ter nenhum acidente, pois seria chato que naquelas condições tivesse que me preocupar agora com um arranjo do carro.
Conduzi até ao supermercado local. Estacionei o carro à  porta, e ao sair o enorme letreiro dizia o nome do supermercado, bem encostado a zona onde havia estacionado.
Quando ia a entrar, dirigiu-se até mim um dos meus vizinhos que me perguntou.
- Por aqui tão cedo João?
- Olá Henrique Respondi-lhe com um sorriso na cara, bem que ainda forçado pela situação em que estava envolvido.
- Parece que ontem houve um dilúvio sobre a cidade. Disse-me Henrique, que entretanto estava a sair com as compras mas na área coberta ainda pelo supermercado, onde não chovia, embora a chuva já cessasse de cair com tanta violência e o sol parecia querer mostrar a sua face.
- É verdade. Ontem choveu a rodes. Como está a sua esposa? Perguntei.
- Está óptima, obrigado. Ontem regressamos da terra.
- Muito bem. Respondi.
- E a Amanda?
- Amanda ficou em casa a tratar das coisas para o almoço. Vem cá a minha sogra almoçar com o meu sogro. O que era uma prática habitual naqueles dias de Domingo.
- Bom almoço João.
Despedi-me de Henrique e entrei no supermercado.
A sensação de ausência da minha mão começava a ganhar uma força própria, e agora sentia essa sensação a alargar-se ao restante braço, com um torpor que parecia aumentar à medida que o tempo passava.
Dirigi-me à zona dos congelados. Enfiei a mão dentro da arca frigorífica e foi isso que me acalmou um pouco. Reparei naquele momento na quantidade de coisas que o supermercado vendia em termos de congelados. Nunca tinha visto nada assim. Era marisco para preparar com arroz, ou era solhas de peixe, carapaus e um número quase infindo de coisas para preparar para a merenda.
Quando retirei a mão da arca frigorífica, esta tinha desaparecido. Fiquei atónito, pois não sentia qualquer sensação nela. Ou era um truque de óptica ou de facto a mão desaparecera mesmo. Tentei abanar o braço, mas parecia estar a ficar embrutecido.
Chamei a funcionária da peixaria e dirigindo-me a ela a cambalear perguntei com ar intrigado e constrangido:
- A senhora consegue ver a minha mão.
A mulher olhou nos meus olhos, e fez uma expressão horrorizada quando me disse:
- Que mão é que o senhor está a falar. Vejo duas mãos.
Acenei-lhe com a mão esquerda.
- Esta você vê e eu também, mas esta a direita?
A mulher olhou intrigada para mim a pensar que eu era louco e disse que sim que via a minha mão direita, não deixando transparecer a sua expressão admirada pela pergunta que lhe fazia.
Sai do supermercado a correr e dirigi-me para os lavabos que ficavam mesmo ao lado.
Lá dentro, olhei ao espelho e de facto via a minha mão reflectida, mas quando olhava directamente para ela, esta já não estava lá.
Que estranho caso se havia apoderado de mim. A minha mão reflectia-se no espelho, mas uma sensação de entorpecimento havia-se instalado em mim.
- Devo estar louco. Pensei comigo mesmo.
Então acalmei-me, passando o meu rosto pelo pequeno fio de água da torneira e chapinhando com a mão esquerda, e relaxei um pouco.
- Isto deve ser da merda dos comprimidos que o psiquiatra me receitou. Pensei para mim mesmo. Por isso vais-te acalmar e vais novamente dirigir-te para o supermercado para fazer as compras que estão a faltar para o almoço.
Acalmei, e olhando para a mão que não via, dirigi-me novamente para o supermercado para fazer as restantes compras.
Peguei no carrinho das compras com a mão esquerda uma vez que a mão direita não existia e não respondia aos meus comandos e dirigi-me para a zona da fruta.
Tinha de comprar laranjas e maçãs que faltavam lá em casa e que tanto a minha sogra gostava, mas não conseguia deixar de pensar na mão ausente.
E então ao dirigir-me para a zona da frutaria esbarrei contra a montra das bananas fazendo-as cair ao chão, e isto porque não conseguia ver a mão direita. Ela atrapalhava todos os movimentos que fazia, e por mais misterioso que seria o caso, era uma sensação de ausência que se via apoderada de mim, e dos meus sentidos.
Consegui contudo comprar tudo o que pretendia, e mesmo com aquela sensação da mão que se estendia a todo o meu corpo, começando agora pelo restante braço, acabei por depositar as compras junto à caixa de pagamento.
- São 49 euros.
Pedi à funcionária que me ajudasse a colocar as compras nos sacos, pelo que ela vendo o meu ar constrangido e preocupado acedeu ao meu pedido.
Colocamos as compras nos sacos, e entretanto, peguei-os com a mão esquerda depois de pagar com cartão de crédito.
- A mulher deve pensar que sou louco, só a utilizar a mão esquerda para fazer as coisas, pensei.
Mas ela lá voltou à sua lide, e não deve ter pensado mais no assunto, porque já estava a atender outro cliente. Com a mão esquerda peguei os sacos e dirigi-me para o carro. Preocupava-me como seria possível conduzir só com uma mão, uma vez que a direita desaparecera e o braço parecia ir pelo mesmo caminho. Apenas se via a manga da camisola a tapar todo aquele embaraço de órgãos que visivelmente para mim haviam desaparecido.
Lá fora acabara de chover, e o sol no céu começava a surgir do encoberto das nuvens no horizonte.
Coloquei as compras na mala do carro, e entrei dirigindo com a mão esquerda que colocava as mudanças com algum cuidado, indo a dirigir com alguma prudência.
Recordo-me de chegar a casa por volta das onze da manhã, e ter aberto a mala do carro com a mesma mão que pegava nas compras, mas era agora o braço que me preocupava. Deixara de sentir o braço direito, e aquela estranha sensação parecia estar a invadir o meu restante corpo. Para já era apenas o braço que deixara de sentir, e por isso, entrei no prédio com as compras dirigindo-me para casa.
Subi as escadas com algum esforço, e pousando as coisas no chão, abri a fechadura.
Amanda estava na casa de banho a tomar banho, pelo que deixei a estar descansada e dirigi-me para a cozinha para pousar os sacos.
O reflexo dos azulejos sobre os meus olhos não mitigavam aquela sensação estranha de ficar em poucas horas sem a minha mão direita e um torpor leve se estar a apoderar agora do restante braço.
Depois de Amanda sair da casa de banho e ainda com a nuvem de água quente que embaciava o espelho, despi a camisola e olhei para o braço que havia também desaparecido. Em poucas horas tinha desaparecido a minha mão e o braço agora também ia pelo mesmo caminho. O que eu não faria para parar aquela situação.
Mas de facto havia pouco a fazer. Era como que um constrangimento que invadia todo o meu corpo e me deixava perplexo.
- Querido já chegaste? Perguntou Amanda.
Do lado de fora da casa de banho, e tentando esconder-lhe a situação exclamei.
- Sim Amanda. Estou na casa de banho e já saio.
Entretanto apressei-me a vestir a roupa antes que Amanda me perguntasse o que se passava.
 O que lhe iria dizer?, pensei: - A minha mão direita desapareceu e o meu braço também está a desaparecer. Seria de loucos, e ela ficaria irritada comigo a pensar que teria alguma coisa a ver com o facto dos pais dela virem almoçar a nossa casa.
Por isso, vesti-me rapidamente e sai da casa de banho dirigindo-me a cozinha.
Amanda estava no quarto a vestir-se e depois saiu na minha direcção dando-me um beijo no rosto.
- Já estas melhor da mão?
- Nem por isso. Respondi-lhe tentando infelizmente movê-la mas sem qualquer resposta. Mas há-de passar.
- Vou preparar o almoço, queres-me ajudar? Perguntou-me.
- Sim amor.
Amanda começou a fazer uma sopa, e aqueles vapores começaram a deixar-me nauseado, com o cheiro que exalava.
- Vou fazer uma sopa e enquanto isso, podes cortar as batatas?
Respondi-lhe que com a mão assim não conseguia. Ela então aproximou-se de mim e pegando na mão direita que eu via ela levantar, fez-me outra pequena massagem para que os meus dedos deixassem de ficar embrutecidos. Mas o que eu via era uma manga da camisola e a falta da mão direita, que ela agarrava com tamanho carinho.
- Estás chateado pelos meus pais virem cá almoçar? Questionou-me.
- Não é isso amor é a minha mão que me dói bastante.
Então ela perguntou se queria que lhe passasse uma pomada para as dores, ao que acedi que sim, que podia passar, pelo que foi buscar o creme à casa de banho. Porem, não senti nada, e apenas via a manga do casaco com a mão ausente a ser massajada pelas mãos de Amanda, que com tanto carinho lhe passava o creme por cima.
Depois, pediu-me que fosse até à sala e que me sentasse a ver um pouco de televisão enquanto preparava o almoço, e que depois me chamaria se fosse preciso alguma coisa.
Lembro-me com a vaga recordação de estar a dar um documentário sobre pessoas a quem tinham amputado os membros, e que na verdade ainda sentiam que existia lá esse órgão suprimido, o que não me deixei de pensar na singularidade e coincidência de estar a dar um programa tão alusivo ao que eu estava a sentir.
Passado um bocado, e perto do meio dia e meio, tocaram à campainha. Eram os pais de Amanda, que tinham chegado a nossa casa.
- Querido podes abrir a porta?
- Sim, Amanda, eu vou lá. Respondi-lhe gritando da sala para que me pudesse ouvir, mas até a minha voz ia ficando com um fio de rouquidão, como se depois do braço aquele torpor se começasse a instalar ao meu tronco.
Respirei fundo e dirigi-me até à porta onde os meus sogros estavam a chegar.
- Olá João. Cumprimentaram-me.
- Bom dia. Respondi-lhes abrindo a porta. Vieram cedo.
- É que a senhora tua sogra queria ajudar Amanda no almoço. Exclamou o Sr. Silveira com uma expressão profunda no rosto.
A Sr.a Silveira deu-me um beijo no rosto e dirigiu-se para a cozinha. O seu marido ia para me cumprimentar, mas disse-lhe que estava com um pequeno problema na mão e que não podia cumprimentá-lo com a direita mas apenas com a mão esquerda, ao que ele olhou para mim de desdém, o mesmo desdém que tinha em relação à condução da minha vida. É que eu era um argumentista desempregado, e segundo a sua óptica, a vida de escritor não era vida para ninguém, o que ele considerava uma vida de quem não quer fazer nada, o que nos tinha já dado razões para várias discussões sobre esse tema, e em que ele saia sempre a ganhar. Porem eram os pais da minha esposa e eu não podia contrariá-los a esse respeito, pelo que o que sentiam por mim ficava bem evidenciado no seu rosto.
- Mas magoaste na mão? Perguntou-me.
- Sim esta manha acordei com ela a doer-me um pouco. Disse-lhe com um sorriso amarelo.
Por outro lado, a Sr.a Silveira, vinha com o seu casacão de peles, que mais parecia um casaco de caça à raposa do que outra coisa, e que me entregou para eu arrumar. Na cozinha ouvi Amanda a cumprimentar os pais.
Entretanto, a minha voz cada vez mais rouca, como se os meus pulmões estivessem a ser invadidos por uma nuvem de poeira, ecoava pelo corredor.
-Sr. Silveira aceita um whisky? Perguntei ao pai de Amanda que tinha vindo ter comigo à sala.
- Sim rapaz, com duas pedras de gelo.
- Amanda temos gelo ai no frigorífico? Perguntei gritando da sala em direcção à cozinha.
- Sim querido, já levo.
O pai de Amanda sentou-se ao meu lado no sofá da sala. Não é propriamente uma sala grande. Tem uma televisão que fica à frente do sofá, dividida por um pequeno móvel onde coloquei os copos de whisky.
Com a mão esquerda coloquei o líquido nos copos, e com a mesma mão fechei a garrafa que deixei em cima dessa pequena mesa.
O meu sogro começou a falar.
- Quando era da tua idade bebia dois whiskys e era como se fosse água. Realçando a sua valentia. Mas era quando tinha a tua idade. Sabes, o whisky faz bem ao coração porque desentope as artérias.
- Não me diga Respondi com a voz cada vez mais rouca.
- É verdade! Faz muito bem ao coração! Insistiu olhando nos meus olhos.
Passado um pouco, e não sei se foi pelo whisky que bebi a minha perna esquerda começou a perder a vontade, e comecei a coxear um pouco quando nos dirigimos para a mesa de almoço.
- Então já encontraste emprego. Perguntou a minha sogra.
- Sra Silveira, já lhe disse que sou argumentista, mas neste momento as coisas estão complicadas para nós. Infelizmente o cinema está pela rua da amargura e andam a contratar poucos argumentistas.
- Pois sim. Respondeu-me a velha. Que raios que me deixou mesmo irritado. A par disso, a minha perna esquerda tinha-me deixado de responder, e coxeava um pouco. Amanda olhou para mim com uma expressão de ternura e perguntou.
- Está tudo bem querido?
- Sim Amanda, é só uma dor na perna.
Dirigimo-nos então para a mesa de almoço e sentamo-nos. Sentia o meu corpo a cambalear de vazio, e a parte esquerda do mesmo parecia estar também a desfalecer, o que criava um reduto de sombra que parecia estar a invadir todo o meu corpo.
Coloquei a comida no prato, e desistindo do braço direito comecei a comer com uma voracidade aparente que até os pais de Amanda repararam. Era como uma necessidade de preencher um qualquer vazio que se apoderara do meu corpo. Como se aquela comida que eu levava à boca com a mão esquerda pegando no garfo, embora eu fosse destro, me preenchesse aquele desaparecimento súbito dos órgãos.
- Assim a comer ainda te engasgas rapaz! Exclamou o Sr. Silveira.
Mas a comida sabia-me tão bem que não liguei à provocação do velho tolo, que insistentemente me provocava sem qualquer motivo.
- Passas-me a salada amor?
E quando ia a passar a salada a mesma sensação começou a surgir na mão esquerda, com o torpor usual a preencher cada um dos meus dedos, que procuravam descanso, e que parecia inusual.
Entretanto passei a salada a Amanda, que me agradeceu.
O Sr. Silveira começou o diálogo.
- Sabes Amanda, penso que deviam mudar para uma casa maior, quando tivessem filhos.
Disse com uma expressão assertiva no rosto.
Ia a responder e com a ausência da mão direita quase que derrubei a garrafa de vinho tinto sobre a mesa.
- Sr. Silveira já falamos sobre isso.
Respondi, uma vez que o pai de Amanda já sabia a minha opinião em ter filhos e não era uma decisão a ter a curto prazo face ao facto de estar sem emprego de momento.
- Mas têm que pensar sobre isso. Respondeu a Sr.a Silveira Já não são propriamente novos e deve estar nos vossos planos terem filhos.
Aquela resposta irritou-me e com a perna direita que parecia estar a ficar também dormente, dei sem querer um pontapé na perna da mesa a que a fez abanar um pouco.
- Estás bem querido? Perguntou a Amanda com aquela resposta inusitada e com o pontapé imprevisto sobre a mesa.
- Sim amor. É que já tivemos esta conversa com os teus pais uma dúzia de vezes.
Sr.a Silveira olhou para mim com uma expressão reprovadora.
- Passa-me a garrafa de vinho João.
Pediu o Sr. Silveira.
Passei com a mão esquerda, mas o torpor fê-la desviar-se e cair sobre o colo do velho.
- Cuidado João. Foram as palavras de Amanda.
- Ai, desculpe Sr.Silveira. Respondi pelo acto de descuido.
- Ora bolas Gritou o velho olhando para mim pronto a praguejar.
Mas calou-se e Amanda foi buscar à cozinha um pano para limpar o pai.
- Peço desculpa, é que as minhas mãos doem-me um pouco e parece que estão dormentes.
- Tenha cuidado para a próxima vez. Respondeu o velho.
No final do almoço mal podia levantar a mão esquerda, e a consciência desse facto fez-me sentar no sofá da sala, de onde não me levantei nas próximas horas.
Contudo, ouvia atrás de mim, pois a mesa do almoço ficava atrás do sofá, a Amanda a dizer aos pais para não ligar de eu ter-me levantado tão cedo da mesa, porque andava cheio de problemas por estar desempregado.
Aquilo fez-me ficar furioso, porque não estava desempregado, não era assim que me sentia, mas sim um argumentista que andava sem trabalho, e que a qualquer momento podia ser contratado.
A mão esquerda ainda respondia bem aos meus comandos, mas por pouco tempo. O que me preocupava mais era a perna direita que havia deixado de responder aos meus desejos.
- Mas querido vais arranjar emprego, eu sei que sim. Ouvi a Amanda dizer na minha direcção, enquanto os pais olhavam de lado para mim, sentado no sofá a ver o programa da tarde na televisão. Embora eu estivesse ali sentado porque já tinha sérias dificuldades em caminhar.
Quando os velhos se foram despedir de mim, levantei-me com a força da perna esquerda e cambaleando despedi-me deles desculpando-me.
- Não sei o que tenho hoje mas parece que o meu corpo resolveu contrariar-me.
E ri-me alto. Já não sabia o que dizer.
O Sr. Silveira olhou de lado para mim e exclamou.
- Claro é o que dá estar desempregado. Ao que anui engolindo em seco mais uma das suas provocações mesquinhas.
Quando eles saíram fechei-me da casa de banho, enquanto Amanda arrumava o resto das coisas da mesa de almoço.
- Está tudo bem querido?
Ouvia do lado de fora ela a perguntar.
- Sim, está tudo bem Respondi-lhe.
Mas olhando o meu corpo no espelho, cambaleando com a falta da perna direita todo o meu tronco parecia vazio e não sei como me aguentava em pé. Era de facto estranha aquela sensação de adormecimento. E a voz cada vez mais rouca que se incutia pelos meus pulmões.
Assim fiquei sentado sob a sanita, em cima do tampo, enquanto o meu corpo se desarticulava, até que desapareceu na sua totalidade.
Foram os gritos da minha esposa que ouvi, quando ela me encontrou de tronco caído na casa de banho, sem qualquer força.
Depois apenas me lembro de os paramédicos entrarem em casa e me levarem ao colo e depois numa maca para o hospital mais próximo.
Lá no hospital, a conclusão a que chegamos é que eu tinha contraído o vírus dos órgãos entorpecidos, que tinha surgido de um raro mosquito de África e que obrigava que o corpo estivesse de repouso durante alguns dias.
Mas ninguém conseguia explicar as alucinações de deixar de ver o corpo, mas julga-se que isso se deve à minha doença bipolar, que pode devido ao vírus, ter levado a contrair uma psicose aguda que me levou a reviver aquilo.
Sei que é uma história estranha, e que roda o absurdo mas depois de uns dias pude sair e regressei a casa. E foi assim que tudo sucedeu.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O ataque dos Marducks - Conto de Escrita Criativa



Conto 1

A voz que vos fala é de um andróide BV22. A Terra foi aniquilada há mais de 500 000 anos atrás e agora os continentes encontram-se à deriva numa era pós apocalíptica de final de uma guerra química.
Eu fui construído pelos Benjis, o povo que criaram a inteligência artificial que me permite narrar a história que vos vou contar. Parece um pouco estranha e notarão pouca verosimilhança com o vosso tempo actual, mas para vocês terráqueos, dos poucos que se exilaram em Marte e partiram para o espaço, é o pouco do que poderei contar.
Os Marducs, este tipo de predador alienígena continuam a proliferar sobre a Terra quando as entidades protectoras, os Dederacs se preparam para uma investida contra esse povo que tornou o planeta inabitável. Eles são aos milhões e alimentam-se de um composto químico que surgiu no mar após essa guerra química, e que se chama de massa envolvente, semelhante a uma sopa universal que lhes transmitem a força que os fazem perseguir os Benjis.
Porém nem tudo são más notícias, porque os Benjis têm vindo a ganhar mais força, e vivendo em comunidades separadas dos continentes principais, em ilhas que surgiram do deslizamento das placas tectónicas, têm vindo a sobreviver ao seu ataque, sendo protegidos pelos Dederacs.
Foi um desses Benjis que me criou a mim. Devo-lhe vassalagem, e nós andróides vivemos em paz com eles nessas ilhas do pacífico que surgiram depois de várias catástrofes ambientais.
O último terramoto, impediu até então, que os Marducks atacassem Creatra, a famosa ilha (a maior) onde vive a maior comunidade de Benjis e de andróides tal como eu que constituímos essa grande família.
Foi numa tarde em que o sol no céu se mitigava com a sua sombra quente sobre o oceano, que os Marducks tentaram atacar a nossa ilha de Serem. Eu estava a jogar um jogo na grande linha estrelar, o grande computador quântico universal que existe e que nos permite contactar com os nossos amigos terráqueos de Marte. São compostos grandiosos que foram construídos pelos terráqueos antes de abandonarem a Terra e permitem a comunicação com esse povo estrelar.
Como vos dizia, estava a jogar um jogo na grande linha estrelar quando de repente a comunicação começou a ficar difusa e o computador desligou-se. Quando espreitei os Marducks tentavam atacar a ilha nos seus grandes barcos de cruzeiro.
Eli, o meu dono, um dos Benjis aproximou-se rapidamente de mim a dizer:
- Estamos a ser atacados BV22. Prepara as tuas coisas para nos dirigirmos para a zona de protecção da ilha.
- Mas o que se passa Eli? Perguntei-lhe.
- A ilha está a ser atacada pelos Marducks. Um dos barcos de cruzeiro conseguiu atravessar a zona de coral e está-se a abarcar na ilha.
A zona de protecção é como vos vou contar, a zona da ilha, no pico mais alto, onde existem naves de viagem estrelar que tem permitido o nosso êxodo de ilha para ilha quando a última é atacada pelos Marducks.
Fiquei atónito com tal observação. O pânico instalou-se na minha mente.
Peguei nas minhas coisas, e metemo-nos na máquina de viagem automática que nos transporta de um ponto para o outro dentro da ilha.
Em poucos segundos estávamos na zona de protecção.
Lá em baixo, os Marducks, esse povo predador alienígena que se tem vindo a multiplicar como um vírus ao longo dos últimos anos, saiam do barco a uma velocidade impressionante, pois víamos lá de cima do pico, o seu plano de ataque, matando quem lhes aparecesse pela frente.
Os Dederacs, os nossos pequenos amigos que nos protegem do ataque dos Marducks, estavam naquele momento em combate com eles mas pareciam que estavam a perder. Os Marducks eram aos milhares, e apenas uma centena de Dederacs com as suas armas nos protegiam como uma barreira face ao ataque brutal dos mesmos.
Gritei por Eli, que se encontrava ao meu lado, e que para me apaziguar introduziu no meu programa um chip que me acalmava face ao perigo. Era importante que todos os Benjis da ilha entrassem dentro da nave para podermos fugir dali a qualquer momento, pois os Marducks começavam a subir a encosta rochosa dessa ilha na nossa direcção.
- Vou-te colocar o chip de protecção e ficarás mais lento BV22 mas é para teu bem. Disse-me Eli.
Respondi-lhe que colocasse o chip que seria para meu bem, e me transmitiria uma maior paz para auxiliar no que fosse preciso do nosso plano de fuga.
Os Marducks tinham aniquilado as poucas centenas de Dederacs e subiam rápido a montanha.
Eli, um dos comandantes da nave, tomou comando da operação e a nave começou a subir no céu. Todos os Benjis estavam a bordo pois tinham sido avisados com antecedência do ataque dos Marducks. Porém tinha-mos que sair dali através da nave, pois a máquina de viagem automática que funciona com um dispositivo quântico, apenas nos permitia deslocar para pequenas distâncias, e não de ilha para ilha. Dirigimo-nos então em direcção a Creatra, a maior ilha onde existia a maior comunidade de Benjis à face da Terra.
A viagem foi rápida pois a nave deslocava-se no espaço a alta velocidade.
- Em Creatra estaremos a salvo. Dizia o meu mestre.
Então Eli, pediu permissão para aterrar em Creatra onde estaríamos todos a salvo.
Do alto da nave ainda conseguimos ver a proliferação de Marducks sobre a nossa antiga ilha, que parecia estar a ser disseminada, com uma imagem de sangue e horror, e nada podemos fazer para salvar os Dederacs, os nossos protectores. Porém, esses pequenos robôs (os poucos que ainda restavam daquela chacina) cuja missão era nos proteger dos ataques dessa força alienígena, estavam nesse momento a fugir nas suas máquinas de viagem no espaço.
Aterramos então em Creatra e a salvo Eli deu-me um forte abraço. Com ele tínhamos conduzido a nave naquela pequena distância sobre o Oceano.
Mas era uma armadilha. Quando aterramos em Creatra não eram os outros Benjis que nos recebiam mas sim um poderoso exército de Marducks que tinham tomado conta da ilha, a nossa última salvação.
Se alguém ler esta mensagem que foi enviada para as colónias exteriores tome nota do que sucedeu.
Fomos aprisionados na zona das catacumbas na ilha de Creatra, construídas de propósito pelos Marducks e encontramo-nos aprisionados desde então.
Esta mensagem foi enviada para as colónias exteriores e pedimos ajuda. Alguém no espaço nos ajude para que os Benjis não sejam alvo de extinção. São uma raça muito pacífica. Para sempre esta mensagem perdurara no espaço à procura de ajuda.

FIM

Critica a um conto "Os homens que mataram Maomé" de Alfred Bester



Os homens que mataram Maome é um conto de ficção cientifica escrito por Alfred Bester em 1959, e que consiste na história de um homem que pretende alterar o presente viajando ao passado, após ter conhecimento de que a sua mulher o engana. Para alterar esse facto na história recorre a uma máquina do tempo, e usando um revolver de calibre 45, mata figuras proeminentes da história mundial.
Alfred Bester foi um escritor e editor que nasceu no seio de uma família judia em Nova Iorque, cidade de que foi sempre associado. Estudou na universidade da Pennyslvania humanidades e ciências, incluindo psicologia que talvez tenha sido a cadeira mais importante do seu curriculum. Publicou várias histórias ao longo dos anos que o levaram a atingir o auge do seu sucesso. Foi o primeiro vencedor do Prémio Hugo, em 1953, pelo seu livro The Demolished Man.
As viagens no tempo são um tema recorrente no universo da ficção cientifica, podendo-se considerar um cliché deste tipo de história sendo nomeadamente conhecidas pelo trabalho de H.G. Wells, no livro “ A máquina do tempo “. As viagens no tempo podem ser divididas em duas categorias principais: a história é consistente e nunca poderá ser mudada, e a história pode ser alterada.
Este conto insere-se dentro do primeiro grupo, pois a história não é alterada, sendo apenas a vida do protagonista, que se torna uma figura fantasmagórica a partir daí, sem qualquer controle sobre a sua vida a partir desse momento, tal como podemos observar no parágrafo final do conto:
- “Com cada acto de destruição dissolvemos um pouco. Agora desaparecemos. Cometemos cronicídio. Somos fantasmas.”
Isto após o protagonista ter encontrado outro viajante no tempo, que tal como ele mata o profeta Maomé, mas em outro período diferente da sua vida:
A história deve a sua hilaridade e sentido de humor a esse facto, em que querendo mudar o facto de a sua mulher se encontrar abraçada a outro homem, o protagonista apenas altera a sua própria vida, segundo os critérios já explicados anteriormente.
Iniciando a sua excursão matando o Avô da citada esposa, desencadeia uma expedição assassinando figuras proeminentes da história mundial, sem qualquer efeito relativo ao facto que o motiva a tal atitude.
O conto está bem escrito, é narrado de forma concisa e os diálogos são os diálogos permitidos para aferir da sua boa consistência, sendo um conto que recomendo aos leitores de ficção cientifica, e pelo seu humor, aos que não apreciando ficção cientifica se enquadram dentro do tema pelo seu bom humor.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Reflexo

Na certeza languida
da tua boca
em que vi brilhar em ti
a alma
em que a certeza era pouca
para sonhar contigo
sempre na certeza de um olhar
reflexo do teu imenso mar
reflectido no sentido
primeiro a ti .

sábado, 11 de janeiro de 2014

Album: Na tua pele

*confidÊncias*



(032033)
Tu sabes em quantos sentidos
(065066)
na tua pele
(021022)
ideal

Que jorra no momento
na tua pele
ideal

Que fere o sentimento
na tua pele
ideal

Que sabe o teu sentido
na tua pele
ideal


REFRAO
(032033)     RE
Porque tu sentes
DO
a verdade em ti
DO menor
a verdade em nós






Amor amor amor

Dá-me saudade das palavras que trocamos
mesmo em pensamento
das caricias ausentes
no teu ventre ferido
do arrojo de um beijo
que me era querido
mas foi tudo tao vasto
e inexistente
que por te amar assim
com a admiraçao por ti
é apenas como uma ferida aberta
no meu peito amor.
Peço-te que venhas
e tragas as palavras perdidas
que consigas traze-las no teu colo
para que eu as devore com os meus sentidos
devagar
como quem devora a alma
e crucifica o terno sentido.
Imaginava nós dois
sob um mar equidestante
que se padeça de orla e fosse minguante
tal como uma lua ausente
de um perene momento
de uma saudade branda
de um só pensamento.
E foi tudo apenas o que conseguia dizer
uma espera perdida
de um amor sequer
e perdido no teu olhar
cujos cabelos ondulam sob teu rosto
cujo sorriso te brota na face
e a mim me seduz
queria tudo isso só para mim
e trazer no meu colo
abrigar-te em mim
e ser teu consolo...
E é tudo tão vago
que as palavras parecem não ter sentido
que sentido que fosse
apenas o teu ombro amigo
nos dias que dizes que são maus
e que carecem de amor
para surgir na tua vida
e ser teu redentor
E é tudo tão vago
tão equidestante
que a vida se faz
nesse mesmo instante...
Por isso trago-te comigo
no meu coração
abarco todas as memórias
que não tivemos em nós
que nunca estivessemos a sós
nesta nossa vida.
Mas o que interessa é apenas o amor
de uma distância perdida 
duas palavras que fosse
e daria-te a minha vida
amor amor amor
não me canso de assim te chamar
porque tudo o que interessa 
é apenas amar-te
mesmo que não saibas
que estejas longe de mim
que nem me conheças
ou repares 
E é tudo tão vago
que se depreende em teu coração
separados por um rio
que jorra profundo em conexão
com o amor que existe
em mim pra te dar
aceita-o com cuidado
e deixa-o repousar
porque assim estabelecido
para corresponder
ao que nele existe
nunca há-de morrer...

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Silencio

Presto atenção ao silêncio
que se embute em mim
que se depreende em cada momento
cada palavra,
cada segundo
para migrar para alem do entendimento
em que surge o silêncio
E desse ressoar
vem a alegria de amar
como se ela se torna-se minha confidente.