sexta-feira, 16 de maio de 2014

Texto de escrita criativa



Estavam no quarto nº18, como indicava na placa em cima da porta rugosa. A luz do hall iluminava mal a entrada da mesma. Era de uma cor violeta que incidia sobre os seus rostos fazendo-os ter uma idade que não aparentavam. O som do quarto ao lado era nítido de uma televisão ligada num canal qualquer. Talvez o canal de vendas que tentaria vender qualquer produto fazendo companhia a quem estivesse acordado aquela hora.
- Entramos?
Entraram. O acesso era feito através de um cartão de plástico que se inseria sobre a ranhura da porta.
O quarto estava sereno e limpo. Inspirava um traço melancólico e as camas estavam feitas. Os lençóis alinhados sobre a cama de cor branca tinham por cima uma manta que se sobrepunha com um aspeto antigo com uns bordados à mão. Um quadro à frente da cama mostrava a imagem de um homem solitário com um cachimbo na boca como se fumasse para esquecer a sua dor.
Num dos cantos do quarto estavam duas malas feitas. As paredes transpiravam saudade. A mesma saudade que demonstrava os rostos do Sr. A (assim o vou chamar) e da Sra. B.
Aproximaram-se e murmuraram algo ao ouvido que não foi inteligível. Deram um longo abraço. O olhar do Sr. A transparecia a cumplicidade que nutria pela Sra. B, o que evidenciava uma relação de longa data. Sentaram-se em cima da cama e abraçaram-se novamente. Foi evidente o sorriso que Sr.A fez para a Sra. B que o abraçava efusivo.
- Sabes que eu gosto de ajudar os outros. Podes contar comigo.
Disse-lhe ao ouvido esboçando um ligeiro sorriso.
E isso era perentório na relação que parecia existir entre aquele casal. Mas seriam um casal? O narrador imiscuísse dessa tese, quando o Sr. A pegou na sua aliança e a poisou em cima da mesa-de-cabeceira. Talvez fossem meros amantes que se encontrariam ali como noutro quarto qualquer.
- Sabes que não devia estar aqui contigo. Disse Sra. B para o Sr. A que a tentava agarrar sobre a cintura. Num acesso involuntário afastou-se dele e murmurou ao leve numa voz que ecoou sobre o quarto num pranto melancólico.
- Não devia mesmo estar aqui contigo.
O Sr.A tolerou esse afastamento e levantou-se abrindo a persiana do quarto, que deteve-se imóvel enquanto entravam os primeiros raios da manhã. Era a madrugada que se anunciava pelos pequenos fios de luz que brotavam do exterior.
- Sabes que não devia estar aqui contigo.
A aliança brilhando sobre a mesa-de-cabeceira ao pé do cartão chave que abria a porta, e o mesmo som do televisor ligado do quarto ao lado no canal de vendas.
- Mas estás! Quer dizer qualquer coisa. Disse o Sr.A para a Sr. B que se deteve olhando um postal que estava em cima da mesa da entrada, bem em frente à cama, com uma imagem de uma porta luminosa que parecia abrir-se á luz que se sentia do exterior.
- Quer dizer qualquer coisa. Repetiu baixinho enquanto lhe olhava o rosto terno e simpático, um pouco pálido do enunciar da hora.
Sra. B sentiu-se vulnerável aquele pedido. Olhou de relance para as malas feitas junto à porta. Uma delas chamando por si, como se fosse uma despedida.
- Dançamos, bebemos um pouco demais e agora queres ir embora. Disse o Sr.A enquanto olhava para a Sra. B reparando que se aproximava das malas.
- Isto tudo parece-me errado. Murmurou a Sra. B.
E o som do televisor que se parecia ter desligado por momentos, fazendo sobressair a sua voz cândida com medo de pronunciar aquelas palavras.
- Talvez seja errado. Disse o Sr.A olhando para a sua aliança perdida em cima da mesa-de-cabeceira ponderando bem a sua decisão. – Mas sabes bem como não gosto de ser contrariado.
Acendeu um cigarro que puxou numa passa mais prolongada fazendo incidir a luz da ponta no escuro do quarto que apenas se iluminava pela luz ténue que surgia da janela.
- E tu sabes que eu sou tolerante. Respondeu a Sra.B aquela frase.
- Podes contar comigo. Repetiu o Sr.A olhando nos seus olhos e puxando mais uma passa do cigarro.
- E sabes que não podes fumar aqui.
Ele olhou profundamente nos seus olhos e disse.
- Se quiseres ir vai. Não te forço mais. E dirigiu-se à mesa-de-cabeceira colocando novamente a aliança no dedo como sinal de partida.
Sra. B olhou para ele e pegou nas malas.
- Vemo-nos por aí. E partiu deixando a porta aberta, uma porta escancarada como um prenúncio do mundo.