sexta-feira, 28 de março de 2014

A morte anunciada de Malena



A escuridão da alma pode ser tão perturbadora como a morte de uma criança. Ela estava a morrer. Uma morte lenta que lhe retirava a vida a cada célula. A impotência de seus pais que a viam deitada no leito à espera da morte convergia para o desespero. Uma impotência de que sabiam qual a origem e lhes apertava o coração com uma melancolia agras que parecia despertar neles o medo do desconhecido. O seu rosto frágil, de olhos profundos de dor, cavados e negros que só com a morfina parecia fazer desaparecer, indiciava uma alma combalida, mas certa quanto ao desfecho nesta vida. Estranho destino que se cingia sobre os ombros leves daquela criança, com o peso da idade terna de apenas seis anos de idade, mas tão segura de si quanto ao que lhe iria acontecer no futuro. Com uma força desmedida parecia acalentar o coração de seus pais com as palavras certas, dizendo-lhes que tudo iria correr bem, e que no futuro no além um anjo a pegaria ao colo e a levaria ao encontro de outras crianças. Assim, adormecida profundamente, cingia-se em si de um pequeno peso de alma, que se intricava na sua vida presa por um fio. Doutor, deveremos ter esperança quanto ao destino de nossa filha? Perguntava o pai da criança ainda um pouco apático face aquela situação em que tinha mergulhado a sua vida. O médico de olhos baixos em direcção ao vazio, e sem lhe poupar qualquer esperança, dizia que era melhor contar com o pior, pois a situação de Malena piorava a cada dia que passava. Nem a quimioterapia parecia melhorar a sua situação. Assim, ligada a uma máquina que lhe injectava pequenas doses de remédio, para lhe reduzir as dores, Malena que morria com um cancro que se tinha expandido por todo o seu corpo, sonhava que subia umas escadas, uma a uma, cujos degraus a levariam para um lugar que lhe mais parecia com o céu, e onde ela poderia brincar com as outras crianças que como ela, Deus havia levado para esse destino Os olhos de sua mãe inundavam-se de lágrimas, mas chorava silenciosamente sem que a pequena se apercebesse, pois era naquele momento apenas impotência que sentia por não poder ajudar a sua filha. Os dias iam passando, e o quarto de hospital onde a criança estava internada enchia-se de flores que as visitas iam trazendo. Eram magnólias, lírios, uma orquídea branca que se cingiam às paredes do quarto de um azul celeste. Apesar de tudo, essas bonitas plantas alegravam o quarto e decoravam o ambiente. E ao respirar esse ar, com o cheiro que as flores transmitiam, Malena parecia imergir num pequeno jardim onde a morte a viria buscar no futuro. Olá, eu sou a morte, e venho-te buscar para poderes brincar com os outros meninos, dizia-lhe uma voz que não a perturbava, mas que a acalentava em relação a um futuro mais risonho que estaria à sua espera. Eu sou a Malena, e nunca imaginei que a morte tivesse a forma de um anjo, daqueles que se vê nos livros de desenhos, com largas asas púrpuras de um branco transparente, tal asas de andorinha. Pois, mas eu sou uma morte especial, aquela que recebe pequenas crianças como tu no seu leito. E Malena sonhava com esse desfecho em que ao subir as escadas com a morte de mão dada, iria ser recebida por muitos meninos que com ela festejariam as mais belas brincadeiras, correndo por esse jardim, que mais se assemelhava ao seu quarto de hospital. E nesses momentos, o seu pai perguntava com quem estava a falar a criança. Ela que se remetia a si num diálogo surreal que parecia ser motivado pelas pequenas doses do remédio que lhe era administrado. Com a morte, papá. Respondia a menina. Ela disse-me que me virá buscar com ela para irmos brincar com os outros meninos. E os olhos de seu pai enchiam-se de lágrimas, pois a morte não pouparia a vida de sua filha nem o que ela tinha de melhor à presença de seus pais. E se ele pudesse fazer um pacto com a mesma, talvez lhe dissesse para o levar antes com ela, e poupar a vida de sua menina, que de tão frágil nem se apercebia do seu desespero. Mas a morte não poupa ninguém. O destino já está escrito nas estrelas e apenas o que pode acontecer é o prolongar de uma situação que será inevitável. Mas se ele pudesse prolongar aquele estado, talvez estivesse a ser egoísta pois as dores no corpo de Malena tornavam-se insuportáveis, e o melhor mesmo é que a morte a levasse com ela para o outro lado e lhe poupasse todo esse sofrimento.
Naquele dia o vento soprava irresoluto sobre as cortinas do quarto de hospital e os seus pais encontraram-na adormecida num sonho profundo. Os seus olhos negros por detrás das pálpebras que se agitavam levemente faziam-na sonhar com o além, onde os meninos brincavam com os seus papagaios de papel numa colina de um monte verdejante, e sob um céu muito azul, calmo e sereno, onde ela se encontraria para seu rejúbilo. O seu pai aproxima-se de Malena e segreda-lhe ao ouvido para ela acordar, e os seus olhos abrem-se de mansinho. Já era dia, e apesar do vento gélido que parecia querer entrar pelas frestas da janela do seu quarto de hospital, ela acordou imersa desse sonho que sempre sonhava quando dormia à noite. O papá e a mamã tem um segredo para te contar. Disse o pai à criança. Olá papa, bom dia. Foram as suas palavras, uma vez que acordara levemente e parecia querer despertar daquele sonho da última noite. Vais ter um irmãozinho. Respondeu-lhe o pai. A mãe olhava para ela com olhos de ternura, e agora que o seu fim estava próximo, Malena ia ter um irmão, pois a sua mãe estava grávida. A criança alegrou-se com aquela revelação, e abraçou os pais com grande furor. Ia ter um irmão, e estava radiosa com aquela constatação. Que alegria imensa em ter um bebé com quem brincar. Então levantaram-na com cuidado e sentaram-na num sofá que existia ao lado da sua cama que ficava encostada a uma das paredes laterais do quarto. O papá comprou este livro de desenhos para a menina. Tem uma bela história. Disse-lhe o pai. E que história é essa. Conte-a papá, conte-a! Exclamou a menina que se havia sentado no sofá e que agora desperta se alegrava com o seu novo livro de histórias. É sobre uma menina que ia ter um irmãozinho. Começou o pai a contar a história. Certo dia, veio a cegonha no céu e trouxe o bebé enrolado num xaile branco, semelhante a uma manta de retalhos de um branco muito branco. E o bebé chorava fazendo: uá uá! Continuou o pai a contar a história. A irmã que o veio receber dos braços da cegonha, uma vez que os pais não estavam em casa, não sabia o que fazer. Então, pegou num biberão e deu-lhe leitinho para ele beber. Mas ele continuava a chorar. E então o que ela fez papá!? Perguntou a criança entusiasmada com a história. Então a criança pegou-a ao colo e começou a embalá-lo e a cantar uma música.
“ Era uma vez um bebé, muito fofinho, que dormia no seu cantinho.”
Cantava a criança. E o bebé começou a ficar embalado e adormeceu num sono profundo, e não mais chorou e ficou muito sossegado. Que bela história papá! Exclamou a criança enquanto olhava para as figuras do livro. Sabes papá, estou cansada. Disse a menina, e então o pai deitou-a novamente na cama. E os dias foram passando.
No dia em que Malena morreu, a sua mãe entrou em trabalho de parto no hospital. Foi como se a sua alma migrasse para o corpo do recém-nascido. Não sei se isso será possível, mas assim pensaram os seus pais, que vendo Malena partir, agora tinham nas suas mãos um bebé frágil. E a partir daquele dia, assim contou a história que as primeiras palavras que ele disse quando aprendeu a falar, foram do nome da sua falecida irmã, Malena, para espanto dos seus pais.