domingo, 9 de março de 2014

Turbina

Por entre jeitos meio surdos e o seu olhar esquecido, o velho turbina entrara pé ante pé numa casa de banho suja, fria e húmida. O espelho partido recordava os velhos tempos cuja barba branca e longa não desmentia e onde surgia a imagem de um homem perdido e confundido com a sua própria essência tantas vezes transformada. Por diversas ocasiões que pressente o seu futuro num forte abalo no seu pobre coração, e cujas pernas haviam avisado. Sobressaltado, procurou a fina linha de água que escorria na torneira branca e calejada, e levou-a ao rosto enrugado e áspero. Curvado, olhou para cima deparando-se com falhas pretas que surgiam dos tijolos manchados com cimento que com o tempo havia perecido. Mergulhou novamente a sua face em mais algumas gotas que caiam na pia requebrada e levantou-se tentando equilibrar-se com a ajuda dos seus membros e apoiando as mãos no lavatório. Por entre instantes sonhos que o visitaram, acordou e voltou para dentro á procura da sua cama. Cama onde encontraria a paz e o silêncio de mais uma noite adormecida.
O dia surgiu socorrido de raios de sol que entravam pela janela entreaberta. Um deles indo de encontro ao rosto de Turbina, acordou-o de imediato. O velho levantou-se, empurrando as companheiras mantas para trás, e apoiou os pés no chão para se orientar. Olhou de relance o seu relógio de cabeceira e soube das 7 e 19 que este marcara. Depois, regressou à casa de banho que tinha visitado na noite passada e no contínuo fio de água que escorria da mesma velha torneira, lavou a sua cara ainda meio atormentada dos sonhos da noite passada.
- “Desça as escadas Turbina…”
As escadas eram antigas mas seguras. Emergindo em duas rectas, ligavam o primeiro andar do patamar, que era composto de várias
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mesas, cadeiras e rodeado de portas envidraçadas que abriam para o jardim. O jardim esse era magnífico. Representava mesmo utopicamente a liberdade. Aliás, era a única liberdade permitida naquele sítio, embora talvez a única que fosse realmente agradável em todo o mundo. As paredes poderiam representar repressão mas naquele sítio significavam segurança. Não de uma prisão, mas de um sítio ligeiramente diferente. Assim, com cuidado e apoiando-se no corrimão, Turbina dirigiu-se á liberdade. Ele próprio dizia:
- “Ó minha bela liberdade, ó minha doce liberdade...”
Mas Turbina era velho, era pobre e era um homem solitário. Nunca teria ambicionado a riqueza e nem esta lhe fora outrora generosa. Apenas invejava a paz.
A paz de um dia poder olhar o pôr-do-sol, como se fosse a sua última visão.
Alcançando a liberdade, sentou-se num dos velhos bancos que o jardim exterior oferecia e recordou...
Naquele tempo, quarenta anos mais novo, Turbina era um estudante que andava a tirar o Doutoramento na Universidade de Aveiro. Era extremamente inteligente. Tinha terminado a sua licenciatura na Universidade de Coimbra com uma média de 19 valores, o que lhe possibilitou de imediato poder candidatar-se a doutoramento. Mas a vida nunca lhe tinha sido fácil. Muito novo partirá de sua casa em Transmontes para a antiga cidade de Coimbra. Munido de muita ambição, entrará no curso de economia onde até aos seus 21 anos continuara a tirar muito boas notas. A sua ambição puxava-o sempre para ser o melhor e muitas vezes refugiava-se em casa a estudar. Porém, tal como todos os jovens procurava a sua identificação e admirava muito o mundo comunista. Era fiel aos princípios Marxisianos, e decorará muitas passagens dos textos escritos por Karl Marx. Era de tal maneira adepto a essa filosofia que muitas vezes procurava dentro dos cafés, os pequenos debates que o intrigavam e o impeliam a saber
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cada vez mais. Os debates que outrora foram escondidos de um regime fascista onde proliferava a ignorância e a insensatez. As ideias iam-se formando dentro da sua cabeça, e à medida que amadurecia, foi procurando novas companhias, com as quais se identificava e que lhe forneciam a segurança que sempre lhe faltará. Porém, uma segurança ilusória, pois entre drogas e álcool o pequeno Turbina foi-se perdendo com o tempo. E tal como perdeu o seu corpo, não se importando muito com o seu aspecto exterior, foi perdendo a sua consciência, e esta foi-se alterando progressivamente. A sua mente, transformada pelo consumo desses produtos químicos começou a deambular em sonhos mirabolantes. O olhar de Turbina mudará. Agora mais louco, tornou-se visionário à sua maneira. De entre as ideias surgiu a loucura, a loucura de viver uma vida sem pensar no amanha. Viver uma vida de alegria, pois ele próprio era a alegria. E neste êxtase de aproveitar cada minuto da vida, e ver no sono tempo perdido, um dia, Turbina, num daqueles seus ataques de joio, ao olhar o pôr-do-sol, tombou inanimado. Era o seu primeiro esgotamento nervoso.
- “Regresse ao jardim Turbina… “
Olhando a sua mão caída e sentado no banco, tinha caído num jogo em que apenas esperava o próximo segundo, sem nada que o pudesse prender ao momento anterior, sem ter de demonstrar nada a ninguém em duras provas irreais. Daquelas em que os humanos por vezes se lançam, sem consciência das suas consequências. Provas frias e irracionais que pouco a pouco vão transformando o sentimento em pedra.
- “ Sentimentos...” Pensou. “ Sentimentos são belos estados de espírito que nos moldam a alma?” Inquiriu. “ São tamanhos prazeres quando tristes...” Suspirou. “ São aquilo que nos faz viver, que nos torna maiores que o mundo e que nos faz criar o mundo...”
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Sentimento de tristeza que tomara conta de si seria apenas isso... nada... pois não era mensurável, mas mesmo assim o tornará prisioneiro de si mesmo.
“ E se o sentimento é apenas isso, porque as pessoas fazem qualquer coisa para os terem?” Pensava. “ O sentimento de amor... de vaidade... de êxtase... As pessoas apenas vivem para os sentimentos, na ânsia de alcançarem as mais belas emoções, muitas vezes esquecendo-se que no seu egoísmo, os outros... ”
Turbina olha novamente a sua mão caída que baloiçava perdida no ar e continua a meditar.
O que o tinha levado aquele estado tinha sido a sua ânsia de viver. De sugar todos os melhores sentimentos que poderá alguma vez experimentar. Nem sequer imaginar em pensar em outros senão esses... magníficos.
Era magnifica aquela vida... vivia na paixão, na loucura, sem pensar no amanha, sem mordaças, tratando a liberdade por tu... andava com ela de mão dada... fazia amor com ela porque eram apaixonados... a doce liberdade...
De repente, sente-se preso naquele cenário... o mesmo sitio de sempre onde julgava alcançar a liberdade, por momentos torna-se-lhe irrisório e surge a ilusão...
Sente-se em pânico e quer gritar mas a mão caída no ar baloiçando e o olhar triste pregado nela, modificam o seu pensamento e deixa-se abater suspirando... aquela era a melhor liberdade que ele podia ter agora.
- “ O ser humano é incrível porque mesmo nas piores situações é capaz de dizer que aquele é o melhor cenário que poderia ter... mesmo nas piores situações nunca tenta fazer nada para melhorar a sua situação. Acho que é esta a explicação para que tantas pessoas passem a vida inteira em trabalhos de que não gostam. E não digam que é para pagar a prestação da casa, a escola dos filhos... acredito que existe essa responsabilidade... mas não
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ambicionar ter uma vida melhor apesar dessas condições é limitar-se a não viver.” Turbina continuava a reflectir.
- “ Todos os dias acordam para uma vida que é dura... mas a vida não devia ser dura... devia ser maravilhosa... a vida é a maior dádiva de todas. É um verdadeiro milagre. É um milagre poder ver todas as coisas boas que nos rodeiam... Queria um dia ser cego e nunca ter podido ver para me curar e ter a percepção do mundo como ele é. Só assim poderia admira-lo na sua grandeza. Só assim lhe poderia agradecer por cada segundo em que o posso admirar. E das entranhas do meu ser dizer... obrigado.
Por cada segundo poder admirar tudo aquilo que sou capaz. Dos pequenos milagres que posso fazer e que transformam o próprio mundo. ”
Turbina pensava... “ Estou louco ”.
Todo o êxtase que lhe invadia o coração lhe parecia loucura. Gritar “Doce liberdade” enquanto descia aquelas escadas todas as manhas, achava normal, mas pensar desta forma era loucura.
- “ Não, jamais alguém pensar assim.”
E nesta incongruência de pensamentos, voltava ao seu antigo estado: a mesma mão baloiçando no ar e de sentidos esquecidos.
- “ Se já alguém já teve um ataque de pânico, não é propriamente um sentimento agradável. Aquele sentimento de mal-estar, nervosismo, aperto no coração, não estar bem em nenhum lado e não poder fazer nada para o alterar... Não quero sentir mais isso...” Pensava.
- “ Prefiro abdicar da minha liberdade em troca da paz. Prefiro entregar-me aos fármacos que escondem a minha situação em prol do meu bem-estar ilusório... prefiro esquecer do que recordar. Perdoar a mim mesmo estes estados de ansiedade que me transformam um pouco de cada vez que me atingem. ” Continuava a reflectir.
- “ São como alfinetes que nos sangram o coração e possivelmente dos piores sentimentos que alguma vez um ser
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humano pode experimentar. E como são sentimentos somos nos que os provocamos. Primeiro imaginamos que possam existir. Existe o pânico e a partir daí imaginamo-lo a entrar na nossa vida. Em segundo imaginamos a viver esse estado, embora que sem nunca o termos experimentado nunca o possamos viver realmente no pensamento. E em terceiro ao concretiza-lo, vamos criar com ele uma relação para toda a vida. É tal e qual a paixão. Com certos estímulos poderá surgir a qualquer momento... avassaladora, sem ter nada que a possa confrontar, e aí no quarto ao entregarmo-nos a ela podemos sair magoados ao ponto de pensar que podemos morrer por esse sentimento. Idiotice... morrer por um sentimento. Somos muito mais do que isso. ”
A mão abana mais rapidamente, como se fosse uma forma de protesto contra a condição humana.
- “Louco turbina, estás Louco” Murmura. “ O verdadeiro sentido do amor não é a paixão, mas o encontro em comunhão com o mais profundo do nosso ser... “