quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Destino (Continuação do conto)

Alguns meses antes

(continuação)



Lisboa.
Cidade adormecida. Das sete colinas na qual é espaço a minha história.
Para a qual migram as mais belas palavras que ao desenhar no papel se compõem em melodia, em jeito simples, da linha que as reencontra de toda a eternidade.
Na folha branca que a tinta compõe de emoção sobre a linha, existem traços de sonhos a quem os lê. E quem lê assim compreende que fazem parte de si, pois todas as vidas do mundo existem cruzadas, reunindo em si os mesmos sentimentos.
Tu que me lês compreendes porque já sentis-te assim.
Lisboa.
Cidade que abriga as almas dos que procuram conforto nas luzes que iluminam as ruas e vivem cindidas na sua comoção.
Ciente das tristezas dos que a percorrem sem rumo, ou das alegrias dos apaixonados que nela prometem juras de amor. Para sempre gravadas nas paredes ou nas árvores em forma de coração, que perpetuam a esperança no infinito que existe apenas enquanto nós por cá a vida respirarmos.
Por ela se escrevem as mais lindas histórias de amor que por vezes ao surgirem despropositadas e inconscientes se tornam mais fortes que o laço irremediável do destino. Nem o fado consegue desatar.
Tal como esta que vos irei contar.
Simples e bela, que reúne em si a inspiração da centelha da vida. As almas dos seus apaixonados poderão nunca se encontrar, por assim a vida o criar por direito, e as suas páginas o designarem, mas o amor que os une apenas só ele o pode explicar.
Um amor que surgiu das palavras e que inofensivo, queima com o fogo da paixão que nos faz sofrer, essa dor do amor não correspondido.
O amor puro e platónico, imemorial das palavras, que se funde com o que a alma transmite de toda a sua beleza.
Tudo começou num dia de chuva.
A chuva caia sobre a terra em rebentos que ao cruzar o vento ripostavam em círculos que se dividiam ao cindir, tal como um bailado que se perpetuava naquele dia cinzento.
A eterna chuva de que se faz tempo quando solitários olhamos ao longe o horizonte, e nos apercebemos da imensidão do mundo.
Um mundo que se cruza em caminhos outrora traçados pelo criador e que se unem nos momentos inexplicáveis.
Sendo pelo acaso do destino que as vidas se desenrolem, e justifique nas suas páginas ilesas que tudo têm um propósito.
Sendo assim, que eu confie nos sinais que me orientam em tempo cego, e que acredite num mundo para além do conformismo com o cinzento dos dias, que desilude aquele que atravessa a sua jornada sem algo de especial que o possa alentar.
Sendo essa a matéria de que são compostos os sonhos, cujo sentido espiritual é simples e natural, por ser apenas possível por assim o sentirmos e querermos para a nossa vida, sendo algo que já existe dentro de nós.
Talvez tenha sido assim que esta história começou. Quando pelo teu olhar terno fui abençoado nesse dia em que era o som da chuva que parecia evadir-se em minha casa e quando dele me tornei apaixonado.
Sem explicação parecia conhecer-te.
No íntimo conhecia a tua essência pura, iluminada pelo teu sorriso sereno de gesto simples em que os olhos falam a linguagem da alma.
Ciente de que o amor existiu eternamente e que basta ressurgi-lo na linguagem das palavras.
Palavras trocadas sob a forma de laços criativos que nos uniam com o passar dos dias, e nos aproximavam, em almas enlaçadas. Repletas desse saudosismo em que se aperta o coração distante, separado pelo mundo, mas unido na certeza de um dia se encontrar.
Foram para sempre juras declamadas ao vento, que ele a ti te levasse em meu nome, para que delas nos tornássemos um pouco mais uno, e a vida permitisse esse amor.
Ela foi generosa contigo por te inspirar as belas canções e tu em mim, os belos poemas.
Melodia que na noite se unia e só tu e eu compreendemos.
Platónico, o tornava especial, criando das palavras o imemorial.
Foi nesse lugar-comum, das palavras que nos podemos conhecer e compreender um pouco da nossa essência, que apesar de submersa por todas as camadas de ego que nos revoguem ao longo das vidas, no infinito, dela se fez brilho em tua alma, revigorando a minha com a tua luz.
Desse encanto, do jeito simples e terno com que te exprimias, pode entender que existe quem não ceda à tentação de viver uma vida aparente e fútil, e procure outra com mais significado.
Ansiando pelos seus sonhos e lutando por eles.
A vida foi-te generosa, embora talvez não fosse em relação ao que nos unia, privando-nos do sentido das palavras que nos faziam sonhar.
Apesar disso, ao ver-te decisiva em relação ao teu destino, pode compreender que a viagem para ti era uma forma de te procurares a ti mesma e só te encontrando regressares a casa.
A vida é uma viagem, cujo sentido impresso na melodia, seduz a nossa alma. É nela que vamos buscar o nosso consolo, resposta ao nosso desassossego, para então ao nos reencontrarmos, descobrirmos a paz na serenidade, e no breve instante em que as palavras se pronunciam no éter, o amor se torne sublime.