terça-feira, 15 de outubro de 2013

Destino (continuação 5 do conto)



Inesperado e puro.
Dias passados como partida do Destino.
Céu em tom de alma, que migra ao som da vida em cada badalada.
Assim se fez tempo.
Assim sorriu a alma.
Do nigredo se fez luz e nele a alvorada.
Do poema criado foi para sempre laço de jeito abençoado.
Sorriu para o passado, pois a sua vida era futuro, era Sagrado.
Era o puro e bom. Desse Destino se fez Dom.
Sendo sua essência repartir e partilhar o seu tom.
A cor surgiu e migrou para o espírito. O brilho luziu desse som.
Amor viu nascer e dele se tornou enamorada.


            Ela compreendia-me.
Dos teus olhos compreendi que a vida nos havia criado esse caminho, cujos focos se uniam iluminando o infinito.
Tal como caminhos cruzados que existem nas páginas da vida desde o ressurgir do mundo, e que apenas se dirigem a um destino que já existe, e que nos limitamos a reviver.
Pensamos que podemos ser prepotentes para o alterar, mas quando os nossos passos são de acordo com essa intenção, também assim o é por a vida o querer.
Não existem sombras negras, pois tudo faz parte de um manifesto maior do que poderemos compreender.
O mundo é simples e sem fórmulas antecipadas.
Tudo flui da maneira como já fluiu um dia em outra eternidade.

            Ficamos a admirar a chuva cair, cujo movimento era cada vez mais ténue. A observar a sombra dos candeeiros que dançavam em círculos nos passeios da rua, abrigados pela escuridão que os acolhia no seu brilho da lua. Os relâmpagos mais longínquos, cujo som se afastava, mas cuja luz clareava a nossa casa de forma exasperante.


Intui que compreendíamos a necessidade da chuva à criação, ao ressurgir da vida, à poesia com que as lágrimas do céu se convertiam em manifesto das palavras. Renascido nesse ritual, o ciclo perpetuaria até ao fim e regressaria à imensidão do tempo, à profundeza do Oceano.
Olhou os meus olhos que cintilavam com a partida das gotas nas janelas, escutando o som do vento sereno que cruzava as torres.
“ O Avô era um homem bom. Com os seus defeitos, tinha um bom coração. “
Ficariam ligados para todo o sempre. O primeiro abraço unira-os ao infinito, e as palavras aos sonhos confidenciados.
Compreendi que todos temos uma história de amor para partilhar com o mundo.

            Um breve arrepio percorreu o meu corpo como se o seu espírito nos escutasse. Senti a sua presença, com a dança momentânea que as luzes criaram, e cujo foco oscilou naquela sala.
Os trovões ao longe uniam-se à terra em traços irregulares, e a chuva partilhava com o vento o fluir no Rio Tejo, que ao longe se via como uma ténue linha do horizonte.
Sentiu um calafrio e aconchegou o casaco junto a si. Respirou fundo e tentou sentir a sua presença. No seu olhar pareceu ler os meus pensamentos.
“ O espírito é um suspiro que se repercute pelo éter e cuja viagem continua após a morte do corpo, em direcção ao infinito. A nossa presença no mundo é demasiado fugaz para o compreendermos. São breves os instantes em que vivemos. O medo que se flui à nossa alma, resulta do facto de não incutirmos essa verdade no nosso ser. “
Imaginava que face à solidão que lhe apertaria o coração, ele retornasse para a acolher em sua paz, cuja presença irradiava essa serenidade. Nesses momentos acolhia-a com as palavras eternas das suas cartas, das quais em silêncio, a vida faria os seus corações dialogarem.
“ Não a tinha abandonado. “ Na eterna jura de amor, apesar de não estar presente, viria ampara-la nos momentos mais difíceis, pois o seu carinho por ela era maior do que a bruma que os separava na passagem entre vidas.
Esperava por ela no dia da sua passagem.
Viria buscá-la tal como no abraço do seu reencontro no cais, quando regressara da guerra, mas agora esperava-a do outro lado do mundo. Daquele de que ninguém tem conhecimento e apenas resta aguardar pela nossa hora.
No negro do céu, a chuva retornou às nuvens. O centro dos sonhos, de onde surge a Aurora, a luz da partida dos trovões era cada vez mais ténue, perdendo-se ao longe, no fluir do Rio.
Perguntei-lhe sobre a morte. Mas compreendi o despropósito e mirrei de olhar cabisbaixo.
“ Não tens razões para ficar assim. A morte é um processo natural na vida. Um prosseguir da viagem. “
Recordei os aviões que partiam do aeroporto da Portela, e que naquele bairro se podiam ver da nossa janela, em direcção ao seu destino.
Confidenciamos essa direcção no infinito. O infinito que em suas cartas se proclamariam eternamente, e no sentido das palavras. A importância das palavras no percurso da Humanidade. O verbo que traduz o sentimento, e que se declama em nossa língua. Quantos sonhos por ela se partilhavam.
Das nuvens criei um bando de pássaros que ao migrar, permitiram ler o encanto da Lua, e o tom do céu cujos focos de claridade se perpetuavam numa maré de luz.
Na vida somos meros espectadores de um destino que já foi escrito nas suas páginas e esse infinito é a ilusão de um finito que já existe, e para o qual flui o mundo.
Apesar disso, pensava que o meu Avô a esperaria no outro lado, ansioso para que as suas almas se reencontrassem. Para lhe contar como esse mundo seria sublime e esplendoroso, sendo esta passagem apenas uma forma de nos purificarmos.
Senti um novo arrepio e a sua presença pareceu aquietar-me.
“ A morte é um pingo de chuva que caí do céu percorrendo a sua vida em distância, e ao cruzar a terra divide-se em partículas de água semelhantes ao pó que retorna à sua profundeza. “

            A luz dos candeeiros cambiaram novamente com o abalo do vento que se incidia pelas torres, e se dirigia em direcção ao céu.

Todas as histórias de todos os tempos são feitas de vida e morte, sendo o final feliz a forma como durante esse percurso, compreendemos a sua efemeridade.
A vida é feita de cumplicidade com o tempo de que são feitas as nossas células. Tempo de que nos queixamos. De que esperamos a futura felicidade. Que nos embaraça pelo passado em direcção ao futuro. Sendo manifesto contrário ao sentir o Agora sujo significado é um estado atento. Mas o ser humano não se consegue desligar das suas emoções. Vivendo nesse estado anímico, procurando a satisfação e fugindo da dor. Remete para a temporalidade o sentido da sua vida. Tal como eu.
Mas isso contradizia com o caminho que nos conduz aos nossos projectos. Esperando na sua concretização a nossa felicidade. Mas talvez de forma efémera…

            “ Os sonhos e as nuvens resultam da tua comunhão com o Céu. Tornam-se um oráculo se olhares com atenção. As suas figuras retornam-te mensagens subliminares e respondem-te as questões, auxiliando o teu caminho. “
Naquele momento eram negras e por isso assustei-me.
“ O céu azul um dia retornará. Nunca te esqueças disso. “

            Naquele momento o meu Avô estaria do outro lado do firmamento, onde o céu deixaria de ser negro, e as gotas seriam melodias da felicidade. Esperava-a com um abraço tão especial como o primeiro, quando ela o fora receber.
Indaguei-a da eterna paixão.
“ O amor é simples e puro, e por ele movemos montanhas e seguimos a pessoa amada até ao fim do mundo. “
Onde a vida escasseia? Perguntei.
Para além do fundo do abismo, cujo negro profundo é a terra para onde converge a cinza em cada ciclo do mundo, e retorna a recordar a sua origem.
“ Unidos nesse amor, a luz surge nessa escuridão, porque ela se cria do perdão, da generosidade e da gratidão. “
           
            Atenta ao espelho da tua alma.

Questionei se o que sentira por ti era apenas uma paixão momentânea.
Sorriu.
O coração abalou como um terramoto, vulnerável ao sentimento que me invadiu o espírito.
O amor…

            Olhou a chuva cair. Das nuvens revivia memórias do passado em forma de sonhos. O primeiro Abraço. O beijo breve num passeio pelas ruas de Lisboa onde as juras que se proclamavam a céu aberto parecia proibido. A emoção ao reler as suas cartas que guardava com carinho.
“ Só tu o podes responder, por isso resta confiar na vida. “
Deu-me um beijo na face e foi-se deitar.
Fiquei ali sozinho a escutar o som da chuva, no seu lamento cuja terra fria acolhia em seu tempo quente.
A carta soava tal como uma melodia, quando ao ler as suas páginas, o papel antigo se movia como uma música.
A vida têm caminhos que nos cabe caminhar, e que apenas ela pode decifrar, sendo as coincidências uma dádiva que nos resta estar gratos.
Aquele momento podia ser uma dessas dádivas e esse reencontro, as palavras de uma carta, que a vida tinha escrito naquele instante.
Linda música que fizeste brotar em mim.
Ao poema dei o teu nome, tornando-se eterno no universo para onde para sempre se declamara à voz do vento.