sábado, 12 de outubro de 2013

Destino (continuação2 do conto)

Naquela altura tinha vinte e poucos anos, e estudava na faculdade de letras de Lisboa. Estaria a concluir o mestrado, que face à sua dificuldade permanecia um desafio e ia ao encontro com o que ambicionava fazer na minha vida que seria escrever.
A minha criatividade necessitava de ser expressa através do papel, pois só assim conseguiria clarificar o turbilhão de ideias que apenas as palavras poderiam transmitir.
Por isso partira cedo de Coimbra para ir morar com a minha Avô num pequeno apartamento na zona dos Olivais, tendo concluído os meus estudos secundários em Lisboa, e ingressando mais tarde na faculdade.
O apartamento situava-se numa das torres à entrada de Lisboa, num bairro sossegado habitado na sua maioria por idosos, pois os jovens haviam partido á muito tempo de casa dos pais à procura de melhores oportunidades.
Do sexto andar ao olhar ao longe a zona da Portela, podia ver da janela do meu quarto os aviões a levantarem voo em direcção ao seu destino.
Imaginava-os pássaros repletos de esperança desaparecendo no céu, tornando-se um ponto longínquo no horizonte. Para além das nuvens que imitam figuras na sua evaporação.
Dessas nuvens são feitos os sonhos. Dos quais também eu pensava emigrar um dia. Sonhos idealizados no pensamento, quantos deles se aluem sem concretização, em lágrimas que mirram na atmosfera.
O retrato de uma época, daquele bairro em que a saudade permanece secreta no coração, e em que a nostalgia não é uma doença mas uma bênção para os que nutrem de boas recordações. Sendo dessa serenidade que do seu bom senso surge o testemunho e herança aos que partiam.
Por isso, o bairro era o contraste do que fora outrora, cuja vida fluía alegremente em todo o seu esplendor. Agora, os passeios degradados eram o sinal de vidas que esperavam o seu fim.
Nem a chuva abençoada daqueles dias frios, parecia alegrar e dar um sentido diferente ao deserto que se fazia sentir durante o ano. Eram as ruas desertas que se perdiam na sua aridez, confundindo-se com as histórias antigas, jeitos traçados de outra época.
Apesar disso, gostava de ouvir o barulho dos pingos que caiam incólumes nas janelas, e ao olhar cá para baixo, a vertigem das gotas que se incidem em direcção à terra, demonstravam como tudo tinha mudado, quando as árvores majestosas e zonas verdejantes se abrigavam a céu aberto, e sorriam para a chuva comungando da sua vitalidade.
Recordei o som do vento que surgia nas folhagens abanando os ramos que crispavam em movimentos rápidos. Quando as folhas secas decoravam o passeio e os passos se tornavam pequenos estalitos ao caminhar, sendo a vida criada desse som para se escutar no silêncio.
A melancolia lembrou em meu olhar um passado feliz. Memórias seriam recordações vivas gravadas na minha alma, despedindo-se desse tempo,
Talvez a chuva suscita-se esses estados de alma.
Olhando a minha Avó serena, indagava como em jovem já me incidia a esses estados. Ela idosa parecia calma em relação à sua vida, mesmo que os dias passassem um a um em direcção ao inevitável destino. Ciente de que o estado havia depositado pouco tempo, e a existência fosse em mim uma curta passagem.
Os meus dias eram passados na faculdade para onde ia durante o dia, regressando à noite a casa.
A minha avó era viúva como a maioria das senhoras da sua idade, pois quis a vida que os maridos partissem primeiro para lhes dar lugar nos bancos de jardim onde ela passava as tardes a recordar os tempos passados. A sua face não a fazia esconder o descontentamento com a vida, e as suas cicatrizes, eram feridas que a faziam chorar durante a noite. Tentava alegrá-la com as histórias da faculdade que suscitavam a sua curiosidade, reconfortando-a e fazendo-a esquecer das suas doenças e preocupações, de seus sonhos perdidos nos anseios e sua solidão.
No dia do chá convidava as suas amigas lá para casa, e a alegria animava um pouco aquele serão, quando falavam dos filhos e dos netos, dos que haviam emigrado e do que havia sucedido aos seus face aos flagelos que existiam na nossa sociedade.

            Naquele dia de Inverno chovia e o vento soprava forte provocando uivos de som que se embutiam pelas paredes e surgiam pelas frestas de casa. As ruas lá fora protegiam-se alheias ao tempo, dissuadindo-se do cinzento que povoa o céu, e unindo-se ao azul que fugia mas era índole de seu ser.
Os relâmpagos ofuscavam em luzes nos apartamentos que pareciam findar em breves segundos reticentes ao desfecho. Do nosso andar podia ver a imensidão dos prédios que se perdiam ao fundo, paralelos e perpendiculares, cujas torres se dirigiam ao céu abrigando a vida, em todos os seus traços e resguardando a sua protecção.
Os candeeiros de rua em baixo daquele andar, criavam sombras que caíam sobre os passeios, tornando-se círculos que abrigavam o fluir da chuva e o passar do tempo. Em sua forma característica abanavam com a força do vento perpetuando o movimento em dança.
Nesse momento, um trovão dissipou em sua força a luz da nossa casa, e remeteu o bairro à escuridão.
Nesse dia em que Lisboa parecia imersa num dilúvio que fazia estremecer as suas casas, e cujo céu castigava a terra pela sua vaidade.