sábado, 5 de outubro de 2013

Destino (excerto do livro)



Era como um avião de papel fino e frágil.
Planava tal como uma folha ao vento, sentindo na sua direcção o ruído da tempestade que se incidia sobre ele a fim de o derrubar.
Nele se ofuscavam raios de luz doirada, provenientes das nuvens que se exaltavam na sua investida ténue, cruzando em sua direcção, tal poeira que soçobre no céu escuro e denso.
Brum… Brum….
Relâmpagos que surgem na atmosfera cinza. Previnem em torpor o ar do seu enredo, e sobre ele sopra o vento em suas asas desequilibrando-o.
Gotas caem cerradas em voos imaculados. Pingos que se destroçam em lágrimas na chapa fria, poética de caos sem luz no horizonte, migram em direcção à terra.
O vórtice escuro para o qual se dirige perpetua-se num ciclo negro, ao qual acolhem as nuvens em movimento, perdendo-se no brilho da lua que se esconde ao longe.
Nesse momento, tal é o nigredo que o céu se curva sobre a intempérie declarando em todo o espaço a sua fragilidade. 
Dessa dor o avião plana, embutido nele de todos os sentimentos, pleno da sua humanidade e ciente do seu destino.
Nele se incluem todas as palavras do mundo que lhe exprimem todos os sonhos e todos os anseios.
Feito de medo transparente como os raios que o abraçam e o apertam fazendo-o declinar. Mas tal como a chuva que o assola, é nele recriada a coragem do seu renascimento, e a esperança que o aguarda em sua devoção.
Brum… Brum….
Em mais um trovão apenas lhe resta persistir no seu caminho, pois daquele quebrar as suas asas desfalecem.
“ Coloquem os cintos por favor…”
Daquelas palavras faz-se silêncio. Silêncio que anseia aos corações dos que naquela viagem se confundem com o som do vento que surge em sua direcção. Desaparecendo atrás do céu que se declara em si em pranto, desprovido do azul que cria a vida.
Nessa onda de ar que o percorre em sua dimensão, abana como uma folha de papel que na sua viagem se sente cair em cada movimento em direcção ao ventre que o fez seu e cuja terra é naquele abismo o oceano.
Observei as nuvens cinzentas que naquele horizonte se tornavam nevoeiro e o cercavam em cegos sentidos.
A sua candeia de luz interior, reunia em si a força de uma vela que por momentos fugaz parece alimentada por fogo vivo, tal era o som que se repercutia em traços que nos faziam estremecer.
Em breves segundos, as luzes do avião desligam-se face à fúria dos relâmpagos, e a luz exterior invade as nossas janelas, ausentando-se depois na escuridão.
Se nesse instante pensasse em algo do que o nada, o pânico surgiria e com ele o aperto no coração.
Curvado reconfortando-me na minha frágil condição, coloquei o cinto tal como recomendado, pressentindo uma eventual aterragem de emergência.
Mas onde, pensei.
No meio do oceano deflagrar-nos-íamos como um pássaro que caí do céu e encadeado soçobre sereno em seu destino. Mergulhando naquela água, evade-se da sua consciência, perdendo a vida, retornando em cinza a outro mundo.
Ao meu redor reparei nos olhos lacrimejantes, cuja maré se tornava sal do destino e se fechava em seu interior pedindo ajuda a Deus, qual Ele fosse. Deus cujo sinónimo de vida os parecia abraçar em sua compreensão reconfortando-os, e acreditando que tudo correria bem, e que Ele estaria ali para os acolher em seus braços, apenas como Ele sabe fazer.
Isso não impedia que as lágrimas se soltassem no rosto para apaziguar a alma, para a limpar de toda aquela densidade de sentimentos que afluíam em medo e anseio de toda aquela situação.
Naquelas sombras negras que o cercavam em seu redor, e cujo fogo eram os trovões que o incidiam por toda a direcção, fustigando-o a interromper ali o seu voo, naquele trepidar, parece quebrar em dois.
Era como uma folha de papel fina em dias de tempestade, cujos ventos a sacodem para que a força dos relâmpagos a possam despedaçar.
Na intempérie, em que a luz se evadia em focos de cor, cujo raio reflectia no seu interior toda aquela centelha de destruição, não pensei em nada.
Apenas olhei a tua fotografia amor.
Aquela que andava comigo para todo o lado, e cujos olhos falavam os meus em silêncio.
Transmitindo toda a tua paz, e mesmo naquele silêncio de caos, todo o teu amor.
O avião estaria prestes a quebrar em dois e partir incerto para o fundo do oceano. Perdendo-se no fundo do abismo cujo negro seria tão denso como aquele céu de sombras negras cujo rodopiar se cindiria na escuridão do espaço sem gravidade no infinito.
Nesse pequeno instante em que a vida passa como uma curta memória da nossa insignificante existência num mundo de ilusão, ao pensar nesses nadas pensei em tudo.
Apesar de fugazes, no pressentimento da partida nos destacamos a nós próprios na nossa própria vida.
Deus deu-nos a possibilidade de não podermos alterar o nosso passado para alterar o futuro. No fim compreendi.
Na imperfeição que possa ter sido a nossa vida, ao cair no oceano profundo retornaremos à terra, tal como dela é feito o nosso interior.
Criados de cinza em nossa volatilidade. De que traços ambíguos somos criados para nos decifrarmos em nossa autenticidade.
Cortejos de palavras que ouvíamos lá de dentro em sinal.
“ Mayday… Mayday…”
Por momentos pareceu ouvir a tua voz amor.
Que me fugiu cá dentro. Por ti confesso que fui por vezes mau e vil, e me concedas o teu perdão por te ter amado assim.
O vento que soprava intransigente e irresoluto na sua investida pareceu trazer a tua voz e o teu perdão.
Perdoa-me que te abandone no imenso oceano para o qual converge o meu olhar e cujo sal é o da minha despedida.
Nele se faz adeus na minha inevitável partida.
“Não me abandones.” Pareceu ouvir naquele momento. Não me abandones porque da tua alma estou apaixonada.
Porque te amo mais do que tudo e apesar das tuas imperfeições eu sei que tu és bom. Acredito em ti. Acredito que mais do que tudo desejas o melhor à humanidade.
Nesse momento, incidiu-se sobre nós um relâmpago que quebrou o avião. Deflagrando o fogo em suas asas quebradas, tal como um pássaro fulminante no céu que se solta inanimado.
O vento refugiou-se no seu interior e as vozes surgiram apagadas na trepidação, ansiando por saber o seu destino.
“ Não me abandones porque em teu interior vive um coração que respira por mim.”
Ouço-o gritando em pranto por todo o amor que merece, mas que lhe escapa por ainda não ser seu. Nesse laço que nos une, como o céu azul que reluz em seu tom calmo espero por ti. Espero pelo nosso encontro. Será como as palavras que trocamos um dia e agora como aquelas que nunca te direi. Pelos sonhos que partilhamos. Pelo futuro cindido em cada passo marcado no fluir da vida, do qual brota a respiração dos nossos corações apaixonados. Pelas noites passadas a pensar em ti e tu em mim, quando no céu a lua ilumina o nosso olhar em comunhão. Nesse teu dom das palavras que me fez apaixonar por ti.
O vento invadia o avião face ao choque do relâmpago que lhe tinha destroçado parte do seu interior, e a trepidação aumentava à medida que as nuvens eclodiam em rebentos, dirigindo-se em direcção ao mar.
Com o remoinho do céu cada vez mais distante voavam bancos e bagagens, perpetuando o pânico e a angústia nos seus tripulantes que reviam ali o último instante.
Com o fluir das rajadas que se opunham em nossa direcção e nos embaraçavam num frio paralisante, alguns tiveram tempo de colocar o equipamento de protecção face à eventual colisão.
Apertei o colete, e reuni toda a minha coragem, colocando as mãos na nuca e preparando-me para o embate.
Num último esforço para equilibrar o avião e o fazer cair com o mínimo de impacto sobre as ondas, ao colidir uma enorme vaga de água desencadeou-se sobre nós, tornando-nos inconscientes.
Nesse momento recordo-me de te ter prometido.
“ Não te abandonarei.”