quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Destino (continuação 7 do conto)



A noite tinha caído.
Os sons dos carros perpetuavam-se pelos passeios no seu regresso a casa.
A atmosfera fria dirigia-se em direcção à faculdade.
Desci aqueles breves metros e aguardei pelo autocarro.
Na paragem olhei os rostos alheios, reparando na dureza da vida. Questionei de que seriam feitos os seus sonhos. Com quem partilhariam os seus anseios. Como lidariam com as coincidências da vida.
Os rostos fechados pareciam declinar desse propósito e apenas eu era feito dessa fantasia.
Apenas restava esse sonho, esse acreditar.
O curso acabava dentro de meses, tal como o pronuncio da minha Avó marcado nas suas rugas, e no seu olhar vago com que se despedia da sua história.
Por isso o sonho alimentava a minha alma. Transmitia-me o fogo que da dor se tornava desabafo, quando imerso olhava os aviões que se despediam em lágrimas cravadas pelos espinhos do tempo.
A minha arte era o eterno sentimento partilhado por todos nós. A eterna melancolia. Em qualquer local falaria a linguagem do mundo. A linguagem da sensibilidade das palavras que se compõem como se vivessem para além do papel.
A música também teria esse dom. Reunir os povos. Deles criar a causa, do poder das palavras por um mundo melhor. Que é nosso dever criar em cada dia de nossas vidas.
Palavras proclamadas ao vento, inspirando na sua emoção.
Por isso apenas restava aguardar pelo pronuncio da vida. Aguardar pela sua esplendorosidade.
Acredita e deposita em ti as infinitas esperanças.
Esquece as preocupações. Eu estou aqui para te apoiar.
Da escrita fundia o belo e o feio para alcançar o sublime. Porque apenas no sublime podia encontrar a essência do universo.


            Nesse dia ao chegar a casa, surpreendi a minha Avó com um beijo na face ao que me perguntou o que se passava por esse gesto inesperado.
Respondi que me enviaras uma mensagem.
A rapariga dos olhos meigos.
Olhou-me nos olhos e surpresa respondeu.
“ Já te respondeu à carta? “
Respondi que o gesto tinha sido imprevisto, e a coincidência teria sido a letra da música que tinha escutado, lendo-a.
A vida havia escrito no seu livro a primeira página da nossa história de amor.
Comoveu-se recordando o meu Avô. Tal como as palavras ao reler as cartas de amor que havia escrito à tantos anos atrás, mas cujo significado continuava marcado na eternidade da sua alma. Como se deles aguardasse o seu reencontro.
Ela acreditava que ele viria ao seu encontro e nesse momento da partida lhe daria a mão para a levar com ele para o outro mundo. Retomando o amor que havia sido interrompido em breves segundos.
Esse o tempo sem significado se ao olharmos para o infinito recordarmos a sua verdadeira grandeza.

            Naquela noite o céu estava sereno. A luz da lua brilhava sobre os passeios iluminando a escuridão.
O som do silêncio apenas era interrompido pelo o cortejo do vento que se evadia pelas poças de água rente ao passeio, confluindo nos passos de que os despercebidos as percorriam.
Olhou novamente para mim e releu a canção que tinha escrito no meu caderno.
Sorriu e disse que devia sempre confiar na vida.
Sendo-lhe grato, ela retorna-nos com o seu amor incondicional.
Escutei os passos em direcção ao caminho, mas cujo destino apenas traz consigo o que o livro da vida já escreveu.

            Das suas palavras fez-se silêncio.
Tal como na noite passada senti um arrepio. A presença do meu Avô fazia-nos companhia naquele momento e senti-me acolhido por ele.
A minha Avó olhou por cima de um dos meus ombros.
Sorriu.
Senti uma paz dentro de mim, apaziguando o meu desassossego. Como se me iluminasse com a sua luz.
“ E tu, já respondes-te? “ Perguntou com um sorriso no rosto e os olhos a brilhar. “ Tens de lhe responder! ” Salientou na sua premonição.
Revivia a sua história de amor, o seu passado, as suas memórias, e que naquele tempo em que era feliz se abraçava ao meu Avô dirigindo todas as juras de amor. A cidade havia-os acolhido nas noites de luar, nas caminhadas na noite em que a atmosfera iluminava as suas palavras.
Respondi que tinha escrito algumas frases mas que não iam ao encontro com o que desejava transmitir.
“ Apenas o teu coração te inspirará as palavras perfeitas. “
O caminho do coração.
O que declina o pensamento, e cujo sentimento é para a maioria de nós irrazoável, pela razão que nos remetemos diariamente nos nossos juízos, valores e parâmetros sociais.
“ Apenas ele te inspirará as palavras sublimes. “
Tentei escutá-lo, mas era absorvido pela razão, e pela minha intelectualidade. Tentei dele escutar o sublime.

            Daquele som de Inverno, cujas folhas nas árvores caiam imersas nos passeios perpetuando a pouca natureza que restava naquele bairro árido e deserto, observei os trajectos da lua.
Ela que um dia me havia dito para transmitir os meus anseios e preocupações para a Lua, olhando-a na emoção, quando dela se fizesse cheia. E ela retornaria a paz ao nosso ser, com a sua luz brilhante.
A lua reflectida no Oceano, cuja história de outro tempo, era apenas um reflexo da passagem do mundo, perdia-se agora em memórias vagas.
Nessa rota, imaginei a Índia.
O país místico onde se reúnem todos os povos e cujo misticismo podia dar algum sentido à tua vida. Sendo dai que encontrarias a sua beleza.
Seriam como pétalas banhadas no rio para o qual flui a corrente em direcção ao mar.
A despedida de um momento em que as lágrimas se proclamam na sua redenção.
De onde surgem as juras de amor.
Perguntei-me qual seria o som do teu coração se nesse instante olhasses a lua.
Que reluz no céu e nos protege da nossa gravidade.
Que te reúne à terra e suporta a saudade de outro tempo e de outro lugar.
Admirando-a como se admirássemos o mesmo poema e ao nos inspirarmos encontrássemos a nossa devoção.
A nossa musa. Tu eras a musa perdida nas brumas do eterno. Aquela que em toda a vida desejava encontrar.

            Na Índia, o ancestral encontrava na pobreza a sua contemplação. O contraste com a cidade de Lisboa. Os seus bairros eram criados de latas e cartões imergidos em forma de parede, cujas valetas suscitavam a ironia das nobres avenidas, que ostentavam o desequilíbrio de riqueza. O migrar dos tecidos novos obstava os perdidos em formatos esquecidos. Aos que os bairros se perdiam por isso mas de forma não menos singular e talvez mais única. A pobreza que reunia a fluência dos povos. Dos sábios que percorriam essas ruas na ascese para o caminho de suas vidas.
Talvez algum te tenha proferido o seu oráculo.
Da forma das nuvens e dos símbolos que lia nos céus, ao encontro com o que te diria que viverias uma intensa história de amor.
No imenso mar de vidas, eram proclamadas junto a esses bairros as palavras dirigidas à partida dos que partiam imersos nas águas. Ao longe, na minha cidade, partilhando dessa tua memória, via o Rio Tejo que também se tornaria teu.
Tu que és melodia do vento. Som do encanto da chuva e dos pássaros que retomam ao seu ninho na noite escura. Inspiração da minha alma que se torna tua, em cada palavra que escutava ao longe.
Partilha comigo o céu calmo e sereno. Dos seus traços perdidos no tempo, era como o Oceano que envolvia esse país, cujo profundo é o tempo que se repercute ao som das estações.
Marés de que são feitas suas lágrimas em sua paz.
Contemplando a simplicidade dos banhos nas suas águas sagradas dos rios que se lhe afluem, e cujo intuito é a purificação. Tomados ao renascimento da lua em cada noite, que nos abençoa com a sua luz. Escutando o vento que sopra sobre essas águas silenciosas, mas cujas sombras o roubam à sua serenidade tornando-o tom de tempestade.
A palavra Cavaleiro era a sua esperança. Queria cruzar com ele a felicidade, unindo dessa saudade, o eterno do cair da noite.
Escutei o coração. A inspiração trouxe-me o seu som, soprado pelas palavras, que eram tuas de toda a eternidade.
            Escrevi…

Carta
            Para ti Donzela,

Do teu Cavaleiro foram sinais partida do destino,
De tua música se fez marés e criou o mar,
Se por ti me sinto assim sozinho,
É porque procuro em ti o meu lugar.
Desta Lua que partilhamos horizonte
Brilho manifesto em teu eterno olhar
São teus olhos, é tua paz é tua vida
Que eu quero partilhar.
Vai á tua procura, da tua alma
Que em paixão se tornou teu respirar
Nas palavras que remeto sem voz mas sinto
É em mim o direito a te amar.
Desse breve vento da manha
Em breves segundos que se recriou o céu
Dele se fez mundo
Imerso na eterna melodia das palavras.
Em teu colo partilhei minhas angústias
E tu com teu olhar disseste estou aqui
Foi desse amor incondicional
Que encontrei o meu abrigo.
Se meu anseio me impele a caminhar
E teu caminho é em ti a tua busca
Nele procuro os teus passos
Que em mim sejam certeza.
De que vale a vida
Se nela se perdem as juras
Os momentos de amor eternizados
Evocados ao luar.
Laços enamorados
Palavras em comunhão
Sentidos cúmplices
Ao acreditar em ti.
Teu cavaleiro surge da sombra
E seu perdão é no mundo redenção
Abraça a tua alma
E protege-te da noite escura.

                        Teu Cavaleiro.